Giuseppe Sala, prefeito de Milão, afirmou em entrevista à rádio que não se sente protegido pelo ministro do Interior, Matteo Piantedosi, diante da possibilidade de presença de agentes do ICE (Immigration and Customs Enforcement) nos Jogos Olímpicos de Milão-Cortina. A declaração ocorreu em contexto de forte tensão política e com base em relatos sobre operações controversas da agência americana.
“Eu, como italiano antes de tudo e como cidadão de Milão, não me sinto tutelado por Piantedosi”, disse Sala ao vivo. O prefeito questionou a naturalização, por parte do Governo, da vinda de agentes estrangeiros que, segundo ele, atuam como “uma milícia que entra nas casas das pessoas com um documento que autoriza a ação”. Sala lembrou casos recentes nos Estados Unidos em que agentes do ICE estiveram envolvidos em operações violentas – eventos noticiados em reportagens e vastamente documentados em vídeos que circulam online.
O debate ganhou novo fôlego após reportagem de jornal italiano que afirmou que agentes do Immigration and Customs Enforcement acompanhariam as delegações americanas durante os Jogos. Fontes do Itamaraty americano e um porta-voz do ICE à agência AFP confirmaram presença: os agentes ofereceriam apoio ao serviço de segurança diplomática do Departamento de Estado norte-americano para avaliar e mitigar riscos relacionados a organizações criminosas transnacionais. Em comunicado, o porta-voz ressaltou, no entanto, que “todas as operações de segurança permanecem sob autoridade italiana” e que o ICE “não conduz operações de controle de imigração em países estrangeiros”.
A divergência entre Roma e a embaixada dos EUA gerou desconforto político. O ministro Piantedosi afirmou inicialmente que a presença não lhe era dada como certa e que não via problema em princípio. Já o ex-ministro Antonio Tajani criticou abusos atribuídos ao ICE, observando que entre deter uma pessoa armada e matá-la há “uma grande diferença”.
Para o Governo italiano, a linha oficial é a de que qualquer operação em solo nacional estaria sujeita à autoridade italiana. Ainda assim, a confirmação por parte de fontes norte-americanas sobre o apoio de agências federais a serviços de segurança diplomática em eventos olímpicos anteriores ampliou a preocupação pública e política. Sala questionou diretamente: “Não poderíamos, por uma vez, dizer não a Trump?”, contrapondo a ideia de que agentes americanos, cujas práticas são contestadas nos EUA, sejam convidados a atuar na Itália.
As críticas de Sala amparam-se em apuração jornalística e no cruzamento de fontes que apontam para operações do ICE alvo de protestos e investigações nos Estados Unidos. Relatórios de imprensa e documentários detalharam casos em que procedimentos do ICE resultaram em mortes e abusos, reacendendo o debate sobre compatibilidade desses métodos com os padrões democráticos europeus de segurança pública.
Em síntese, a presença anunciada do ICE nas Olimpíadas provoca três pontos centrais: 1) a tensão institucional entre autoridades italianas e a representação diplomática americana; 2) a crítica política interna sobre aceitabilidade de práticas policiais estrangeiras em solo italiano; 3) a necessidade de clareza operacional sobre autoridade e limites das ações de segurança durante o evento.
Seguindo o princípio da apuração rigorosa, permanecem pendentes esclarecimentos formais por parte do Ministério do Interior e da Embaixada dos Estados Unidos sobre a extensão das atividades do ICE e as garantias de que toda operação cumprirá estritamente a jurisdição e as normas italianas.
Apuração e cruzamento de fontes por Giulliano Martini — correspondência de Milão e cruzamento de dados com agências e documentos públicos.






















