Por Giulliano Martini — Apuração e análise. Um amplo estudo conduzido por pesquisadores da Michigan State University, publicado na revista científica PLOS One, identifica associações entre traços de personalidade e a frequência de fantasias sexuais. A investigação envolveu 5.225 adultos nos Estados Unidos que responderam a dois questionários padronizados, permitindo um mapeamento detalhado entre traços da personalidade e tipos de fantasia.
O primeiro instrumento mediu a frequência global das fantasias sexuais e dividiu-as em quatro categorias: fantasias exploratórias, íntimas, impessoais e sadomasoquistas. O segundo avaliou os cinco grandes traços da personalidade — extroversão, amabilidade, conscienciosidade, neuroticismo e abertura à experiência — e algumas de suas dimensões internas, como ansiedade e depressão no caso do neuroticismo, além de medidas como respeito e responsabilidade.
A análise estatística apresenta dois resultados centrais. Primeiro, níveis mais altos de conscienciosidade e de amabilidade estão consistentemente associados a uma menor frequência de fantasias sexuais, em todas as categorias avaliadas. Esse efeito é especialmente relacionado a traços ligados ao senso de responsabilidade e ao respeito por normas e pelo outro. Segundo, indivíduos com pontuações elevadas em neuroticismo, e em particular aqueles com maior componente depressivo, tendem a relatar uma maior frequência dessas fantasias.
Não foram encontradas associações estatisticamente significativas entre a frequência de fantasias e outros traços como extroversão ou abertura, um achado que contrasta com hipóteses prévias e aponta para um quadro mais complexo do que uma ligação direta e simples entre personalidade e vida imaginária erótica. As relações observadas mantêm-se coerentes através das diferentes tipologias — das fantasias íntimas às exploratórias e impessoais.
Os autores, liderados por Emily Cannoot, destacam que os resultados não devem ser interpretados em chave patologizante. Fantasias sexuais são comuns na população e pesquisas anteriores indicam que podem contribuir para o bem-estar individual e relacional. O valor do estudo, segundo os pesquisadores, está em mostrar que diferenças de personalidade ajudam a explicar parte da variabilidade entre indivíduos, ainda que muitas associações sejam de magnitude modesta e não determinísticas.
Metodologicamente, a pesquisa usa instrumentos padronizados e uma amostra ampla, o que confere robustez aos achados. Ainda assim, os autores recomendam cautela: correlações não implicam causalidade, e fatores contextuais, culturais e de história individual podem modular tanto personalidade quanto conteúdo e frequência das fantasias.
Do ponto de vista clínico, compreender essas associações pode apoiar profissionais de saúde mental e clínicas sexológicas a promover intervenções mais personalizadas, levando em conta que traços como neuroticismo ou conscienciosidade influenciam a vivência imaginária sem determiná-la. Em resumo, o estudo oferece um raio-x baseado em dados sobre como a arquitetura da personalidade se relaciona com a vida fantasiosa sexual, com implicações para pesquisa e prática clínica.


















