Por Giulliano Martini — Espresso Italia.
Uma pesquisa da Faculdade de Saúde Pública da Universidade do Michigan demonstra que a exposição cumulativa ao chumbo aumenta significativamente o risco de desenvolver Alzheimer e outras formas de demência. O estudo, publicado em Alzheimer’s & Dementia: The Journal of the Alzheimer’s Association, baseia-se em um acompanhamento de longo prazo e em análise estatística aprofundada.
Os pesquisadores cruzaram dados do National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES) com registros de reembolso do Medicare e registros de mortalidade, com seguimento de até 30 anos. Utilizando algoritmos de aprendizado de máquina, a equipe estimou as concentrações de chumbo nos ossos, um indicador de carga cumulativa ao longo da vida.
Os resultados apontam que indivíduos no quarto com níveis mais elevados de chumbo ósseo apresentaram risco quase três vezes maior (razão de risco 2,96) de desenvolver Alzheimer em comparação com os do quarto mais baixo. Para demência por todas as causas, o risco foi mais que o dobro (razão de risco 2,15).
Segundo a autora principal, Kelly Bakulski, este é o primeiro estudo empírico que quantifica o impacto populacional dessa associação: cerca de 18% dos novos casos de demência nos Estados Unidos a cada ano poderiam estar ligados à exposição acumulada ao chumbo. Com aproximadamente meio milhão de novos diagnósticos anuais de demência nos EUA, isso corresponderia a quase 90.000 casos potencialmente evitáveis.
Um elemento central da apuração é a distinção entre chumbo no sangue e chumbo nos ossos. Conforme explica o professor Sung Kyun Park, da área de Epidemiologia e Ciências da Saúde Ambiental, o chumbo no sangue reflete exposições recentes (com meia-vida em torno de 30 dias), ao passo que o chumbo nos ossos pode persistir por anos ou décadas. Por isso, o chumbo ósseo é um biomarcador mais adequado para avaliar a carga cumulativa que contribui para doenças crônicas como a demência.
Metodologicamente, o estudo utilizou modelos preditivos treinados com medidas diretas de chumbo ósseo para estimar concentrações em amostras onde apenas houve mensuração de outros parâmetros. Essa combinação de bases nacionais (NHANES), registros administrativos (Medicare) e dados de mortalidade, com técnicas avançadas de modelagem, reforça a robustez dos achados.
Do ponto de vista de saúde pública, a interpretação é direta: reduzir a exposição cumulativa ao chumbo — via políticas de mitigação do contaminante em ambientes residenciais, alimentares e ocupacionais — pode ter impacto mensurável na incidência de Alzheimer e demência. A cifra estimada de casos evitáveis sublinha a relevância de intervenções preventivas e de monitoramento de populações de risco.
Esta reportagem baseou-se no artigo original publicado pela equipe da Universidade do Michigan e nos dados e declarações disponíveis no trabalho científico. Apuração in loco não aplicável; tratamento dos fatos baseado no cruzamento das fontes citadas e na leitura crítica do texto publicado.
Giulliano Martini, correspondente e analista de saúde pública — Espresso Italia.






















