Por Giulliano Martini — Um caso que reúne falha tecnológica e risco à assistência: uma mulher de 105 anos, residente em Merine (província de Lecce), foi registrada nos sistemas sanitários regionais como uma criança de cinco anos, com a consequente atribuição automática a um pediatra. O episódio expõe uma fragilidade crítica do sistema sanitário digital quando a idade é interpretada de forma equivocada e o paciente passa a existir, nos bancos de dados, com uma nova identidade.
Reportagem cruzando relatos da casa de repouso onde a idosa está internada e declarações de médicos de família revelou que a anomalia não foi apenas um erro de exibição: ela criou um limbo burocrático para a paciente. Segundo profissionais consultados, houve dificuldades para emitir receitas, atrasos em procedimentos e incerteza sobre prestações assistenciais que, até o dia anterior, eram garantidas.
Nas palavras de um médico de medicina geral ouvida pela imprensa local — e confirmada por contato com a instituição de longa permanência — “os ultracentenários foram atribuídos ao pediatra: parece absurdo, mas é assim. Para algum sistema regional, ela deixou de existir e reapareceu como menor, acionando automaticamente as regras da faixa etária pediátrica”. O caso, portanto, transcende um mero erro estético: trata-se de um apagamento funcional do paciente nos fluxos assistenciais.
Os técnicos regionais já receberam a notificação e iniciaram a análise dos registros. Fontes técnicas explicam que sistemas informatizados de saúde dependem de regras automáticas para categorização etária e atribuição de profissionais; basta uma anomalia no campo data de nascimento ou na rotina de importação de dados para provocar um reposicionamento indevido do beneficiário. Esse tipo de falha, quando não detectada, pode gerar consequências reais no acesso a medicamentos, consultas e exames.
Especialistas em governança de sistemas de informação em saúde consultados descrevem o problema como um risco sistêmico: bases de dados fragmentadas, processos de integração com scripts automáticos e ausência de validações robustas para casos extremos — como centenários — ampliam a chance de erros. A percepção local é que não se trata de um caso isolado e que é necessária uma revisão das regras automáticas que regem a classificação etária.
Enquanto a equipe técnica regional investiga a origem do erro e busca restabelecer a ficha correta da paciente, a casa de repouso reporta atendimento manual e contingências para garantir que as prescrições e serviços continuem a ser fornecidos. O episódio é um alerta: a digitalização da saúde traz ganhos de eficiência, mas também exige controles rigorosos para evitar que um erro digital se traduza em perda de direitos e de cuidado para os cidadãos mais vulneráveis.
Apuração: cruzamento de fontes locais, declaração de médico de família e comunicações da casa de repouso em Merine. Fatos brutos e verificados, sem espaço para especulação.






















