Por Giulliano Martini — Apuração in loco e cruzamento de fontes mostram que o problema das startups italianas não é a escassez de capital, mas a incapacidade de convertê-lo em empresas escaláveis. Em 2025, as startups italianas receberam cerca de €1,7 bilhões em investimentos. Ainda assim, poucas evoluem para scale-ups. O diagnóstico é direto: capital mal aplicado amplia fragilidades — não as resolve.
O diagnóstico segue a avaliação de Lorenzo D’Amelio, empreendedor com exit e mentor em programas de aceleração como B4i – Bocconi for Innovation. Hoje baseado no Reino Unido, D’Amelio dirige a Merakyn, consultoria que combina design de modelo de negócio, validação de mercado e estratégias de crescimento com foco em performance e impacto. Segundo ele, a lacuna não é ideia ou talento — esses existem —, mas sim metodologia e estratégia rígidas para transformar iniciativas em negócios replicáveis.
Na apuração foram identificados cinco pontos críticos que mais frequentemente impedem a escalabilidade das startups:
- Product-first em vez de market-first. Equipes gastam meses aperfeiçoando tecnologia sem verificar, primeiro, se há demanda real. O resultado é um produto sofisticado, porém sem mercado comprovado.
- Pricing não testado. A disposição a pagar dos clientes é frequentemente suposta, não medida. Sem um modelo de receita validado, projeções de crescimento tornam-se conjectura e reduzem a confiança de investidores.
- Go-to-market improvisado. Comercialização tratada como etapa posterior ao desenvolvimento penaliza o ritmo de crescimento. Falta uma estratégia clara sobre canais prioritários e execução disciplinada.
- Ausência de processos replicáveis de aquisição. Primeiras vendas podem surgir por rede pessoal ou janela de oportunidade; sem funis, testes A/B e métricas, a expansão estagna.
- Governança e competências gerenciais limitadas. O salto de startup para scale-up exige execução, controle de gestão e estrutura organizacional que muitos fundadores não têm — ou não contratam a tempo.
“Em Itália há talento técnico e criatividade. Falta método científico no desenvolvimento do negócio. Se não é medível, não é escalável”, afirma D’Amelio. A constatação tem implicações práticas: capital investido em modelos frágeis tende a amplificar ineficiências e acelerar o desgaste financeiro.
Além de apontar os problemas, a apuração indica caminhos práticos. D’Amelio propõe três estratégias decisivas para transformar capital em crescimento real e sustentável:
- Validar e estruturar modelos de negócio robustos. Não basta um produto brilhante: é necessário validar a demanda, testar o pricing em cenários reais e construir unit economics que sustentem a escala. Isso implica experimentos controlados, coletas de dados e iterações rápidas até que o modelo seja comprovadamente rentável.
- Desenvolver um go-to-market baseado em dados. Definir canais prioritários, construir funis replicáveis de aquisição e medir métricas chave (CAC, LTV, churn). O lançamento comercial não pode ser improvisado: deve ser desenhado como um processo testável e escalável, com hipóteses claras e KPIs que guiem decisões.
- Fortalecer governança e capacidades de execução. Montar estruturas de gestão com controle financeiro, processos operacionais e governança clara — incluindo conselhos consultivos e gestores experientes capazes de profissionalizar a operação. Escalar exige disciplina gerencial tão intensa quanto agilidade técnica.
Do ponto de vista prático, a recomendação é combinar mentorias especializadas, programas de aceleração que exijam validação de mercado e a presença de investidores que acompanhem métricas operacionais, não apenas aporte financeiro. O capital passa a ser catalisador quando se apoia em fundações mensuráveis.
Em resumo: o caminho da escalabilidade em Itália passa por metodologia, testes e governança. Investimento existe; a questão é converter recursos em processos repetíveis, métricas consistentes e estruturas organizacionais aptas à escala. Essa é a realidade traduzida na experiência de quem acompanha startups no front: sem método, o crescimento fica no discurso; com método, torna-se realidade.
Reportagem por Giulliano Martini — correspondência com base em entrevistas e verificação de dados junto a programas de aceleração e consultorias.






















