O governo de Giorgia Meloni apresentou um decreto para transpor a diretiva europeia que visa reforçar a transparência salarial e combater o gender pay gap. As reações das centrais sindicais foram imediatas e duras: tanto a Cgil quanto a Uil classificaram o texto como insuficiente e apontaram alterações que, na avaliação das organizações, representam retrocessos em relação ao projeto inicial.
Para as secretárias confederais da Cgil, Francesca Re David e Lara Ghiglione, o decreto aprovado não mantém, em toda a sua extensão, o caráter inovador anunciado pelo Executivo durante o processo de implementação da Carta Social Europeia. Segundo as dirigentes, a versão final é “peggiorativa” em comparação com a primeira minuta divulgada após o encontro com as partes econômicas e sociais em 2 de fevereiro.
A Cgil destaca que a proposta restringe o âmbito de aplicação da diretiva europeia, excluindo explicitamente categorias como o aprendistato, o trabalho doméstico e as colaborações continuativas, sem explicitar adequadamente as diversas formas de trabalho subordinado. Em termos práticos, afirma a confederação, o texto “não inclui o trabalho autônomo quando regulado pela negociação coletiva”.
Outro ponto de crítica recai sobre a referência à negociação coletiva. A Cgil defende que o remédio normativo deveria remeter sempre aos contratos firmados pelos sujeitos comparativamente mais representativos, e não a um “contrato coletivo genérico aplicado em empresa”, que pode favorecer práticas de dumping contratual e piorar condições laborais. No decreto, em vários trechos-chave, a negociação coletiva aparece invocada apenas na ausência de um contrato coletivo aplicado pelo empregador, sem vínculo claro a critérios de representatividade das partes signatárias — algo que, para os sindicalistas, constitui “arretramentos evidentes”.
Também são criticadas as mudanças relativas ao cronograma de monitoramento do diferencial remuneratório. O texto reduz a obrigatoriedade anual de comunicação apenas às empresas com pelo menos 250 empregados, enquanto para empresas entre 100 e 249 trabalhadores a periodicidade passa para três anos. Para a Cgil, essas são “limiares considerados excessivos para o contexto produtivo italiano”.
A Uil, por sua vez, manifesta observações análogas. Ivana Veronese e Vera Buonomo sublinham a exclusão de categorias como aprendizes, trabalhadores intermitentes e do setor doméstico. Além disso, as representações sindicais apontam o desalinhamento do novo instrumento com um mecanismo já previsto na legislação italiana: o Relatório bienal sobre a situação do pessoal masculino e feminino, que empresas com mais de 50 empregados devem apresentar a cada dois anos.
Segundo a Uil, o novo dever de prestação de contas não será exigido de empresas com menos de 100 empregados, terá periodicidade trienal até 250 trabalhadores e — sobretudo — para empresas com menos de 150 empregados a obrigação só entrará em vigor a partir de 2031. “Como explicar essa diferença de tratamento?”, questionam as dirigentes, lembrando que, no ínterim, muitas trabalhadoras sofrerão discriminações salariais sem resposta imediata.
As críticas sindicais terminam com um aviso institucional: as condicionantes do texto, na avaliação das lideranças da Cgil e da Uil, abrem espaço para que a União Europeia examine a conformidade da Itália com a diretiva europeia e, potencialmente, inicie um procedimento de infração contra o país.
Apuração rigorosa e cruzamento de fontes mostram que as objeções centrais dos sindicatos giram em torno da definição do âmbito de proteção, da hierarquia normativa entre contratos coletivos e políticas públicas e do calendário de monitoramento — elementos técnicos que, segundo as centrais, comprometem a efetividade das medidas anunciadas pelo governo para reduzir a desigualdade salarial entre homens e mulheres.






















