Por Giulliano Martini, correspondente Espresso Italia. Apuração in loco e cruzamento de fontes.
Na véspera do Natal, a Bluergo, fábrica de componentes elétricos sediada em Castelfranco Veneto, província de Treviso, distribuiu entre seus cerca de 60 funcionários um questionário que pedia aos trabalhadores que indicassem quem gostaria de ver dispensado. A iniciativa suscitou imediata reação interna e repreensão do sindicato.
O formulário inclui, segundo documentos obtidos e verificados, uma questão explícita: “No caso em que se julgasse necessária uma redução imediata do pessoal, ou por outros motivos se devesse proceder nesse sentido, segundo quais critérios as pessoas deveriam ser escolhidas para sair de casa?”. Foram oferecidas cinco opções para orientar a seleção: funcionários que se mostrem voluntários; primeiro os contratados em regime de part-time; pessoas sem encargos familiares; os mais jovens; e “outro” (com campo para especificação).
Além do teor da pergunta, agravou o clima a exigência de que o empregado assinasse o próprio formulário. Dos módulos distribuídos, apenas cerca de um em cada dez foi devolvido assinado, um indicador do desconforto e da recusa expressa pela maioria dos trabalhadores.
Funcionários ouvidos e fontes sindicais descreveram consternação e revolta. Alguns compararam o procedimento ao enredo da série Squid Game, em que competições internas forçam participantes a decisões extremas por sobrevivência. A analogia foi usada para sublinhar o caráter punitivo e humilhante percebido no método.
Procurada, a direção da empresa, representada por Bruno Scapin, defendeu o instrumento como um “simples mecanismo de escuta” e “investigação interna para testar o clima empresarial”. Scapin afirmou que o mercado atravessa uma fase de crise e que o objetivo declarado da empresa é evitar licenciamentos. Em defesa pública, disse ainda acreditar que a iniciativa poderia contribuir para encontrar alternativas à demissão.
Mesmo assim, na manhã seguinte à distribuição do questionário foi realizado um encontro formal entre a propriedade e o pessoal para esclarecer intenções e perspectivas ocupacionais, segundo registros da reunião e relatos de participantes.
A seção local da Fiom Cgil de Treviso reagiu com nota oficial, manifestando “indignação e profundo desconcerto”. O sindicato qualificou o procedimento como “mossa insensata que transfere a responsabilidade do licenziamento para os próprios trabalhadores”, transformando uma crise econômica num “jogo cruel” e atacando a dignidade dos empregados. Manuel Moretto, secretário geral da Fiom local, afirmou que tal prática representa uma tentativa de desagregar o tecido social da empresa e que não pode ser tratada como uma consulta democrática.
O episódio levanta questões sobre a legalidade e a ética de instrumentos corporativos que envolvem os próprios trabalhadores no processo de seleção para dispensa. Especialistas em direito laboral consultados ressaltam que quaisquer procedimentos que possam configurar coação, pressão coletiva ou violação de direitos contratuais e de representação devem ser objeto de escrutínio pelas autoridades e pelas organizações sindicais.
Enquanto a direção mantém que a intenção é preservar empregos, os representantes dos trabalhadores prometem acompanhar de perto desdobramentos e medidas concretas antes de aceitar qualquer decisão que afete postos de trabalho. A situação permanece sob monitoramento sindical e institucional.



















