Passou pouco mais de um mês desde que, em 10 de dezembro de 2025, a Unesco declarou a cozinha italiana como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Tratou‑se de um marco histórico: a primeira vez que uma cozinha nacional inteira recebe esse reconhecimento. A decisão provocou reação imediata no setor e, nas primeiras semanas, já começamos a observar sinais de efeito entre os profissionais que fazem da culinária italiana uma identidade em ação.
Adnkronos/Labitalia ouviu três nomes de referência — do Norte ao Sul — que unem tradição e inovação no mesmo compromisso: Enrico e Roberto Cerea, do Relais & Châteaux Da Vittorio (Brusaporto, Bergamo); Simone Panella, do Antica Pesa; e o chef Cuttaia, de La Madia, na Sicília. Todos apontam na mesma direção: o reconhecimento aumenta tutela, autoridade e responsabilidade.
Enrico e Roberto Cerea, à frente do restaurante três estrelas Michelin Da Vittorio, definem o selo da Unesco como um “volano” para o setor. Segundo eles, a inclusão da cozinha italiana entre os patrimônios imateriais confirma que a gastronomia é também expressão de um modo de viver e de ser. “Não é só narrativa do território, da qualidade da matéria‑prima ou da técnica: é o relato de uma atitude sincera, feita de gestos e pequenas atenções, que coloca a convivialidade e o prazer no centro”, afirmam. Para os irmãos Cerea, o reconhecimento pode gerar crescimento econômico, desde que todos os atores mantenham padrões elevados, entregando experiências que satisfaçam tanto o paladar quanto o coração.
Simone Panella, do Antica Pesa, considera o reconhecimento internacional um marco de prestígio. Ele ressalta que é cedo para mensurar efeitos práticos, dado que se trata de pouco mais de um mês desde a proclamação e o início de ano costuma ser um período de menor movimento após festas. Ainda assim, Panella destaca a expectativa de maior tutela e respeito pela tradição culinária italiana e pela produção enogastronômica. No seu estabelecimento já houve conversas com clientes estrangeiros sobre o tema. Para ele, a medida deverá beneficiar não só a restauração, mas todo o setor ligado ao alimento e à bebida, especialmente na defesa dos produtos italianos frente a imitações no exterior.
Do Sul, o chef Cuttaia (La Madia, Licata) vê no reconhecimento uma oportunidade para valorizar identidades regionais e incentivar inovação com respeito às raízes. Ele aponta que a proteção conferida pela Unesco pode aumentar a visibilidade internacional das técnicas, produtos e saberes locais e, ao mesmo tempo, impor uma responsabilidade maior sobre quem os pratica e os promove. A expectativa comum entre os três chefs é que o selo funcione tanto como ferramenta de promoção quanto de salvaguarda, desde que acompanhado de políticas concretas de formação, controle de qualidade e defesa do território.
Em termos práticos, o impacto já detectado nas primeiras semanas é sobretudo simbólico e institucional: maior atenção da mídia, discussões entre clientes e operadores, e um acréscimo de autoridade nas negociações para proteção de produtos e marcas. A médio prazo, profissionais do setor esperam reflexos positivos sobre o turismo gastronômico, a cadeia de fornecimento e ações de combate às falsificações.
O cenário desenhado pelos chefs entrevistados é de desafios e oportunidades em equilíbrio: a cozinha italiana ganha proteção e centralidade, mas também maior exigência. Cabe agora aos agentes públicos e privados transformar o selo em políticas e práticas que preservem a autenticidade sem tolher a criatividade — o que, na prática, significa manter padrões elevados e instrumentos de tutela eficientes para garantir que a tradição continue a evoluir como patrimônio vivo.
Autor: Giulliano Martini — Apuração in loco, cruzamento de fontes e relato direto dos protagonistas.






















