Por Giulliano Martini — Apuração in loco e cruzamento de fontes confirmam que a nova regulação europeia de fronteiras para carbono, o CBAM (Carbon Border Adjustment Mechanism), pode provocar um impacto significativo na cadeia produtiva do móvel no continente. A Assopannelli, associação da FederlegnoArredo que representa fabricantes de painéis e semielaborados, e a European Panel Federation (EPF) soaram o alarme em reunião hoje na sede da entidade italiana.
O ponto central do alerta é a inclusão da ureia industrial nas mercadorias sujeitas ao CBAM, a partir de 1º de janeiro de 2026. A ureia é matéria-prima crítica para adesivos, resinas e para a produção de painéis de madeira usados em construção e mobiliário. Segundo estimativas apresentadas por Assopannelli, a aplicação do mecanismo poderá elevar os custos de produção dos painéis em aproximadamente 10% a 12% ao longo de quatro anos.
O cálculo apresentado considera um incremento de 40 a 60 euros por tonelada na ureia a partir de 2026, repetido por quatro exercícios, com efeitos cumulativos ao longo da cadeia. Em termos práticos, isso tende a repassar aumento de custos para fabricantes de móveis e demais elos da cadeia, reduzindo a competitividade dos produtos europeus frente a importações de fora da União Europeia.
Outro fator apontado no diagnóstico técnico é a dependência estrutural das importações: a produção europeia de ureia industrial cobre hoje apenas cerca de 20% da demanda industrial, obrigando a indústria a recorrer majoritariamente a fornecedores extra‑UE. Esse perfil torna qualquer sobretaxa sobre a ureia particularmente onerosa e de impacto assimétrico para os fabricantes europeus.
“A aplicação do CBAM à ureia industrial sem correções adequadas risco de penalizar as empresas europeias”, afirmou Matti Rantanen, diretor da EPF. Rantanen recordou que, em novembro, a federação solicitou à Comissão Europeia a exclusão da ureia para uso industrial; o pedido foi rejeitado. Diante disso, a EPF e Assopannelli pedem agora a suspensão imediata da aplicação do mecanismo à ureia, invocando os efeitos no mercado interno e nas filiais a jusante.
Os representantes reforçam que a recente suspensão de tarifas sobre fertilizantes anunciada pela Comissão em 14 de janeiro não resolve o problema para a indústria de painéis: grande parte da ureia importada pelas empresas do setor já provém de países que estavam isentos dessas tarifas, ou seja, a medida não neutraliza o impacto do CBAM sobre as cadeias industriais.
O encontro de hoje, preparatório à assembleia anual da EPF — marcada para 10 a 12 de junho em Milão, por convite da FederlegnoArredo — sinaliza a intenção de atuação conjunta para sensibilizar instituições europeias e proteger a competitividade do setor de painéis e móveis europeu. “É fundamental que as políticas europeias considerem as especificidades do nosso setor”, afirmou Paolo Fantoni, presidente da Assopannelli da FederlegnoArredo.
Relato técnico: os dados usados nas projeções foram compilados a partir de fontes setoriais e de mercado, com checagem cruzada entre relatórios industriais e estimativas de custo da matéria-prima. A discussão segue em terreno institucional, e os próximos meses serão decisivos para eventuais ajustes normativos antes da entrada em vigor programada para 2026.






















