Nos últimos anos a arte deixou de ser um domínio exclusivo dos museus para entrar de forma orgânica nas estratégias e nos espaços das empresas. O fenômeno, observado em diferentes setores, vai além da decoração: trata-se de um uso deliberado da arte como linguagem capaz de comunicar identidade, valores e visões de longo prazo, fortalecer o diálogo interno e interpretar transformações sociais e tecnológicas.
Entre as práticas mais recorrentes estão as coleções corporate, as parcerias com artistas contemporâneos, exposições realizadas em headquarters e projetos abertos ao público. Essas iniciativas redefinem o relacionamento entre cultura e empresa, promovendo não apenas representação simbólica, mas também experiências que conectam empregados, clientes e comunidades.
O diagnóstico é confirmado por Stefano Petricca, CEO da Petricca&Co Capital S.A., empresa que integra serviços para estruturação e gestão de fundos alternativos e tem na arte um dos seus focos. Em análise que combina observação de mercado e cruzamento de fontes, Petricca lembra que, nas últimas duas décadas, a presença da arte “avançou como uma onda” sobre setores industriais e profissionais: “O que seria Louis Vuitton sem a contaminação com Murakami, Kusama e Prince? Ou empresas como Deutsche Bank ou Clifford Chance sem suas coleções? Agora a arte invade hotéis, restaurantes e espaços urbanos, transformando-os em museus com video-instalações e performances: pense em James Turrell em Courchevel ou Cattelan em Modena. Não existe mais o Mark Rothko que retira suas telas do Four Seasons de Nova York.”
Um exemplo concreto dessa interseção entre arte e estratégia corporativa é a mostra “The Pantheon of Care”, concebida por Andrea Crespi para a empresa ab medica, a partir do conceito 2026 “Just One Care”. Estruturada em 12 obras, a exposição foi pensada como um espaço de convivência entre obras, pessoas e valores; um palco onde se torna visível e universal a noção de cura, articulando mito, ética e inovação.
Francesca Cerruti, CEO da ab medica, explica a lógica por trás do projeto: “Acreditamos que a arte, em todas as suas formas — do cinema ao teatro, das mostras às linguagens visuais contemporâneas — é um instrumento poderoso para contar valores, visão e inovação. Somos uma empresa tecnológica, mas sempre aberta a contaminações culturais que enriquecem tanto a comunicação externa quanto o diálogo interno. Nossa sede é uma expressão dessa visão: projeto que concatena tecnologia, bem-estar e qualidade estética. A arte nos ajuda a interpretar o mudança e funciona como linguagem universal que acompanha ciência e tecnologia na construção do futuro”.
Essa experiência se insere num panorama mais amplo, no qual o diálogo entre arte e ciência ganha centralidade em programas corporativos e em políticas culturais. A tendência é que empresas adotem a arte não apenas como ornamento, mas como instrumento de governança cultural: catalisador de identidade, facilitador de inovação e ferramenta para traduzir para públicos internos e externos transformações complexas.
A leitura jornalística exige atenção aos fatos brutos e ao raio-x do cotidiano das organizações: trata-se de medir impacto e coerência — como a obra dialoga com o propósito da empresa, quem tem acesso às iniciativas e que indicadores são usados para avaliar resultados. A adoção crescente de programas artísticos corporativos impõe, portanto, um controle profissional sobre processos curatoriais, preservação, projeções de longo prazo e avaliação de retorno cultural e reputacional.
Apuração in loco e cruzamento de fontes mostram que a integração entre arte e empresas segue em expansão e tende a redefinir práticas de comunicação e gestão. A fronteira entre museu e empresa continua se tornando porosa — e, nesse movimento, a arte confirma seu papel como vocabulario público para narrar o presente e projetar o futuro das organizações.


















