Por Giulliano Martini — Apuração in loco e cruzamento de fontes: o recente aumento da pressão judicial sobre empresas de entrega como Deliveroo e Glovo reativou o foco sobre os sistemas automáticos que ordenam o trabalho dos entregadores. No centro do debate está o algoritmo conhecido internamente como Frank, projetado para otimizar rotas, atribuir pedidos e avaliar desempenho, mas já alvo de decisões judiciais por práticas discriminatórias.
Introduzido por Deliveroo por volta de 2017, o algoritmo Frank combina técnicas de machine learning com dados em tempo real — GPS, tempos médios de entrega, condições meteorológicas e disponibilidade dos riders — buscando reduzir os prazos de entrega em até 20%. O sistema gera um ranking que privilegia os “top performers” nos chamados “slot peak”, levando em conta logins em horário, velocidade nas entregas e confiabilidade.
Segundo documentos e relatos de trabalhadores, o mecanismo também aplica penalizações por ausências e baixas taxas de aceitação, atingindo profissionais que perdem turnos por doença ou participação em greves. Essas regras tornaram o Frank objeto de processos: em 2021 o Tribunal de Bolonha considerou o sistema discriminatório e ordenou a remoção de penalizações aplicadas a riders por ativismo sindical, além de determinar ressarcimentos.
Na comunicação oficial, a plataforma descreve o Frank como um algoritmo auto-aprendente, orientado por modelos preditivos para estimar o tempo de preparação de um pedido e otimizar a experiência do usuário. Na prática, porém, sindicatos e magistrados apontam para uma opacidade operacional que viola garantias de privacidade e direitos laborais, gerando a acusação de funcionamento como um “caporale digital”.
O nome do algoritmo tornou-se tema de especulação interna e externa: enquanto a empresa atribui ao personagem Frank, da série americana “It’s Always Sunny in Philadelphia” (interpretado por Danny DeVito), uma escolha de tom humorístico, alguns observadores sugerem uma referência ao professor Frank Pasquale, crítico dos sistemas algorítmicos e autor de obras sobre a “caixa-preta” das plataformas.
Atualmente, com novas investigações em curso, as plataformas negociam com a Procuradoria: as possibilidades discutidas vão desde a regulação das relações de trabalho até a retirada do serviço do mercado italiano. Não se prevê, por ora, uma obrigação universal de contratação direta, mas há pressão por modelos de remuneração que garantam condições mínimas, incluindo pisos horários dignos.
Como contraponto prático, destaca-se o exemplo da Just Eat, que adotou o CCNL de Logística, Transporte e Spedizione, migrou do cottimo para pagamento por hora (faixa base de 7,50–8,50€/h, com adicionais por feriados, noturno e cobertura integral por doença) e oferece benefícios como férias, TFR, seguro INPS/INAIL, formação e material gratuito. A empresa afirma cobrir entre 2.500 e 3.000 riders (idade média 35 anos, ~50% italianos) e renovou compensações e bônus até 2027, incluindo vouchers de 200€.
O caso Frank ilumina uma tensão central: a promessa de eficiência tecnológica versus a conformidade com direitos trabalhistas e privacidade. A apuração aqui combinou decisões judiciais, comunicações empresariais e relatos sindicais para apresentar o raio-x do cotidiano dos riders, sem especulação e com ênfase nos fatos brutos.
Seguir-se-á acompanhamento dos desdobramentos legais e negociações com Promotorias locais. A realidade traduzida indica que, enquanto algoritmos regularem tarefas críticas, o debate sobre transparência, responsabilidade e compensação continuará no centro das auditorias e dos tribunais.






















