Na conferência de imprensa de Sanremo houve troça e frieza institucional: Carlo Conti comentou em tom irônico sobre a presença de políticos — «Meloni? Vem se comprar o bilhete» — enquanto a interessada respondeu com pragmatismo: «É FantaSanremo, eu faço o meu trabalho». No mesmo contexto do festival, a apresentação de Ema Stokholma ao PrimaFestival reafirma a importância simbólica e profissional do evento para quem faz da música uma vida inteira.
Ema Stokholma, 42 anos, explica sem floreios: para ela o ano só começa quando as luzes do Ariston se acendem. «Sanremo é o Capodanno della Rai», repete com convicção. A definição não é frase de efeito: traduz a centralidade do festival na sua identidade profissional, onde se encontram as múltiplas facetas da sua atividade — apresentadora de rádio, DJ, escritora e pintora.
A trajetória da apresentadora não é narrativa de glamour, mas de ruptura e reconstrução. Nascida em 1983 na região do Ródano-Alpes, na França, filha de mãe francesa e pai italiano, Stokholma mudou-se para Roma aos 15 anos para ficar com o pai. Alguns meses depois optou pela independência total. Essa escolha de afastamento e autonomia é apresentada por ela como elemento constitutivo: transformou dor em linguagem e fez da música um refúgio antes de se tornar uma profissão.
Em entrevistas e declarações, Ema Stokholma sublinha um contraste que norteia sua ação criativa: a violência que marcou a infância e a perseverante relação com o silêncio e a noia. «Hoje não temos tempo para nos entediar, para ser tristes, para viver certas sensações. Eu, ao contrário, fico muito em contato com o silêncio e com a noia», afirma. É nesse vazio que, segundo ela, se estruturam os novos começos — seja uma mesa de mixagem, seja uma tela em branco.
A relação com a música começou cedo. Nos anos 1990, em uma adolescência marcada por isolamento e menos distrações tecnológicas, o walkman e os fones representavam uma companhia constante. «A música ajudava a pensar menos e a ver o mundo de outra forma — não mais como um lugar de gritos e críticas, mas como algo que eu poderia construir», relata. A descoberta do rádio veio depois, quase como consequência natural desse vínculo com o som: um convite de Andrea Delogu para almoçar em um estúdio foi o gatilho que lançou seu interesse pela comunicação noturna e pela forma como a rádio transforma a madrugada em narrativa.
Na preparação para o PrimaFestival, Stokholma afirma ter se treinado por 12 meses e considera o trabalho no festival como um ponto de chegada e recomeço. A sua versatilidade — DJ que reconstrói pistas como narrativas coletivas; apresentadora que transforma a noite em reportagem; pintora que procura no cor a tradução de timbres — volta sempre à mesma lógica: a arte como antídoto à violência e a noia como motor de criação.
O perfil que ela desenha é pragmático e sem retórica. Não há romantização do caminho difícil nem instrumentalização do trauma: a ênfase está na conversão do vivido em trabalho, na disciplina de preparação e na centralidade de Sanremo como termômetro profissional. Para quem cobre o festival, a presença de Ema Stokholma no PrimaFestival funciona como índice de uma rádio que ainda quer narrar a noite e, com ela, descrever o país.
Relatos públicos e entrevistas recentes mostram também uma postura clara diante do espaço público: ela não reivindica cenários políticos, evita confusões e mantém o foco editorial. Da mesma forma que evita a autoposição dramática, quer que seu trabalho fale pela sua trajetória — uma trajetória que tem na música o seu antídoto e na noia um impulso criativo.
Conclusão em termos práticos: ao chegar ao Ariston, Ema Stokholma traz uma experiência construída sobre silêncio, treino e disciplina. Sua narrativa é uma prova de jornalismo de palco — fatos brutos, caminhos verificados, uma voz que transforma dor em som e em imagem.






















