Por Giulliano Martini — Uma investigação recente aponta que assumir o papel de cuidador de crianças pode funcionar como um escudo contra o declínio cognitivo. O estudo, publicado na revista Psychology and Aging, analisou dados longitudinais e concluiu que os avós que cuidam regularmente dos netos apresentam desempenho cognitivo melhor do que aqueles que não desempenham essa função.
O trabalho foi conduzido pela pesquisadora Flavia Chereches, da Universidade de Tilburg (Países Baixos), e partiu do questionamento explícito: a assistência prestada pelos avós às famílias pode trazer benefícios também à própria saúde cerebral dos cuidadores? Para responder, a equipe examinou 2.887 participantes do English Longitudinal Study of Ageing — todos com mais de 50 anos e idade média de 67 anos — que responderam a inquéritos e realizaram testes cognitivos em três momentos entre 2016 e 2022.
O levantamento incluiu perguntas sobre se o respondente havia cuidado de algum neto no ano anterior, bem como sobre frequência e tipos de atividades realizadas: dormir com a criança à noite, cuidar de netos doentes, participar de jogos e atividades recreativas, ajudar com deveres de casa, acompanhar a criança à escola ou atividades, preparar refeições, entre outros.
Depois de ajustar os resultados para variáveis demográficas e de saúde, a análise mostrou que os avós envolvidos no cuidado dos netos obtiveram escores superiores nos testes de memória e fluência verbal em comparação com os que não cuidavam. O achado se manteve independente da frequência do cuidado ou do tipo específico de atividade desempenhada. Ademais, o estudo identificou que as mulheres que atuavam como cuidadoras apresentaram um declínio cognitivo menor ao longo do período de observação quando comparadas às que não cuidavam.
Em declaração incluída no artigo, Chereches destacou que ‘o que mais chamou a atenção foi a associação geral entre ser um avô cuidador e melhores funções cognitivas, mais do que a frequência ou o tipo de assistência prestada’. Os autores ressaltam, porém, a necessidade de replicação dos achados e de investigações adicionais para esclarecer o papel do contexto familiar e outras variáveis de confusão.
Do ponto de vista metodológico, a pesquisa utiliza um desenho observacional com controles estatísticos para reduzir vieses, mas mantém limitações típicas desse tipo de estudo: a impossibilidade de estabelecer causalidade definitiva, a influência potencial de fatores não mensurados (como suporte social amplo ou atividade física) e a dependência de autorrelato para caracterizar o cuidado.
Em termos práticos, os resultados aportam um sinal importante para políticas públicas e planejamentos familiares em países com populações envelhecidas: o envolvimento intergeracional pode representar não apenas suporte às famílias, mas também um elemento de promoção da saúde cerebral dos idosos. Ainda assim, como concluímos a partir do cruzamento de fontes e da leitura técnica do artigo, são necessárias pesquisas complementares para definir mecanismos, limites e possíveis efeitos adversos associados a cargas excessivas de cuidado.
Apuração técnica: análise dos dados do English Longitudinal Study of Ageing (2016-2022), leitura crítica do estudo em Psychology and Aging e checagem das declarações da equipe de pesquisa. A realidade traduzida: haveria benefício cognitivo ligado ao papel ativo de cuidar dos netos, mas a confirmação definitiva exige replicação e investigação dos fatores contextuais.






















