Por Giulliano Martini — Apuração técnica e cruzamento de fontes. Um estudo prospectivo divulgado no Journal of the American Heart Association associa o cronotipo vespertino — os chamados gufi — a uma saúde cardiovascular significativamente pior em comparação aos indivíduos de cronotipo intermediário ou matutino, conhecidos como allodole.
A análise examinou dados de 322.777 participantes do banco de dados UK Biobank, com idades entre 39 e 74 anos, todos sem história conhecida de doença cardiovascular no início do acompanhamento. Os pesquisadores empregaram a pontuação LE8, construída a partir de oito fatores essenciais para a saúde cardiovascular, para mensurar o estado cardiovascular global dos participantes e estudar a associação entre cronotipo e eventos cardíacos.
Resultado principal: indivíduos com cronotipo vespertino apresentaram, em média, pontuações LE8 inferiores, indicando menor alcance dos oito parâmetros de saúde cardiometabólica avaliados. Em um seguimento de 14 anos, os gufi demonstraram um risco 16% maior de apresentar um primeiro infarto ou AVC (acidente vascular cerebral) em comparação à média da população estudada.
Os autores apontam que o aumento de risco observado parece ser amplamente explicado pelo menor cumprimento dos fatores essenciais para a saúde cardiovascular entre os noturnos, ou seja, o desajuste circadiano e os comportamentos associados (padrões de sono, alimentação, atividade física, entre outros) comprometem as funções cardiometabólicas.
O estudo identifica ainda que cerca de 8% dos participantes se classificaram como noturnos, mais ativos no final da tarde e durante a noite. A associação entre cronotipo vespertino e pior saúde cardiovascular foi mais pronunciada entre as mulheres segundo os resultados apresentados.
Comentando os achados, o infettivologista Matteo Bassetti destacou em publicação na plataforma X que os gufi “potrebbero essere più a rischio di infarto e ictus”. Em tradução técnica: os padrões de atividade noturna parecem ligar-se a maior probabilidade de infarto e AVC ao longo do tempo.
Implicações práticas: os autores recomendam que indivíduos com cronotipo vespertino podem se beneficiar de intervenções direcionadas aos fatores de risco das doenças cardiovasculares, incluindo medidas para reduzir o desajuste circadiano e promover a adesão aos oito parâmetros avaliados pela pontuação LE8.
Importância jornalística: o estudo se baseia em um grande coorte populacional e em medidas padronizadas de fatores de risco, reforçando a relação entre cronobiologia e saúde pública cardiovascular. A interpretação exige, no entanto, cautela: associação não implica necessariamente causalidade direta, e intervenções específicas devem ser avaliadas em ensaios controlados.
Resumo prático para o leitor: a realidade traduzida pelos fatos brutos do estudo indica que, para a saúde cardiovascular, ser ativo nas horas centrais do dia e reduzir o desajuste entre os ritmos biológicos e o comportamento diário pode representar uma estratégia preventina relevante. Apuração in loco dos dados e cruzamento de fontes sustentam esta conclusão.





















