Crans‑Montana — Momentos de tensão marcaram Sion na manhã de hoje, quando os proprietários do discobar Constellation, os coniugi Moretti, chegaram para prestar depoimento sobre o incêndio que na passagem de ano deixou 41 mortos, em sua maioria jovens. Familiares das vítimas gritaram aos acusados: “Vocês mataram nossos filhos”.
Os interrogatórios se iniciaram no âmbito da investigação sobre o rogo que transformou a festa de Réveillon em tragédia. A esposa, Jessica Moretti, deve ser ouvida ainda hoje. O casal compareceu escoltado pela polícia e acompanhado por seus advogados, mas a situação fugiu ao controle quando um pequeno grupo de parentes — menos de uma dezena, segundo as primeiras apurações — partiu para o confronto físico e verbal.
Ontem, em interrogatório anterior, Jacques Moretti negou as acusações e atribuiu responsabilidades a outras instâncias, nomeadamente ao Cantão e ao Município. Em seu relato às procuradorias que conduzem as investigações e à plateia de mais de 50 advogados das partes civis presentes, o proprietário manteve a linha defensiva: afirmou que o Constellation era um local seguro e que eventuais falhas de segurança seriam responsabilidade de terceiros.
Nos depoimentos em Sion, Moretti insistiu que “o sistema de ventilação do Constellation nunca foi verificado, nem pelo Município nem pelo Cantão”, respondendo às hipóteses de que o incêndio tenha sido agravado por um déficit de renovação de ar no ambiente subterrâneo. A constatação processual de problemas com os extintores também foi trazida à audiência: dos quatro aparelhos disponíveis, nenhum teria sido utilizado. Fotos da polícia científica mostram que os extintores não apresentavam a sinalização refletiva obrigatória, necessária para sua visibilidade no escuro.
Ao comentar essa anomalia, Moretti afirmou sem hesitar: “Não foram usados porque todos pensavam apenas em fugir”. Sobre a sinalização, disse que havia fixado os cartazes com fita dupla-face, que teriam se destacado com o fluxo de pessoas.
Outra questão técnica em análise é a inflamabilidade de materiais presentes no interior do clube, como espumas acústicas e colas usadas na fixação. Sobre esse ponto, Moretti relatou um detalhe até então inédito: para escurecer o revestimento de madeira no estilo chalé do salão subterrâneo, ele teria utilizado um maçarico entre vigas, inclusive onde havia espuma, e afirmou que “nada pegou fogo” naquele momento.
Enquanto o proprietário buscava se defender das críticas das partes civis, os autos da investigação revelaram as primeiras imagens do interior do local devastado: o mobiliário severamente danificado, o teto destruído e os restos da festa que se tornaram cena de tragédia. Além das imagens, surgem elementos que complicam a posição das instituições locais.
Documentos parciais indicam que o Município de Crans‑Montana não teria incluído o Constellation entre as prioridades do calendário de inspeções de segurança, apesar da capacidade declarada de cerca de 200 pessoas e do fato de o local ser integralmente subterrâneo — condição que exige atenção especializada em planos de evacuação e ventilação. Investigações preliminares apuram eventuais lacunas na fiscalização e no cumprimento de normas de segurança.
O quadro processual segue em construção. Procuradores, equipes da polícia científica e advogados das famílias continuam a examinar elementos técnicos, imagens e depoimentos para reconstruir a dinâmica do incêndio e apontar responsabilidades penais e civis. O clima fora do fórum permanece carregado: familiares das vítimas prometem acompanhar de perto cada ato do processo e já demonstraram prontamente o seu inconformismo durante a chegada dos acusados.
Apuração in loco, cruzamento de fontes oficiais e documentos judiciais serão determinantes para transformar as suspeitas em conclusões jurídicas. A investigação prossegue, com a expectativa de novas audiências e perícias técnicas que poderão esclarecer pontos centrais como a origem do fogo, o papel das condições estruturais e a eventual responsabilidade das autoridades locais.
Giulliano Martini — reportagem e apuração direta de Sion.




















