Por Giulliano Martini — Apuração in loco e cruzamento de fontes: a tragédia no hotel Constellation, em Crans-Montana, derramou nas linhas do socorro suíço um fluxo contínuo de angústia e informações essenciais. Entre 1h30 e 3h00 da madrugada do dia 1º de janeiro, a central de emergência recebeu 171 chamadas, cujas gravações agora integram os autos da investigação da Procura do Valais.
Os fatos brutos mostram que a primeira ligação chegou segundos antes da 1h30 com a súplica: “Vorrei che veniste, perché c’è un’emergenza al Constellation”. Àquela altura, os operadores ainda não tinham dimensão do desastre. Em seguida, as chamadas se sucederam em tom crescente: testemunhas alarmadas, vítimas em pânico e familiares desesperados relataram incêndio, explosão e muitos feridos.
Em dezenas de gravações reproduzidas por emissoras suíças, surgem relatos concisos e confusos, típicos de quem acaba de sofrer um trauma extremo: “Credo di essermi bruciato… il Constellation è bruciato interamente”; “Molte persone stavano per morire… chiami un’ambulanza”. As chamadas prosseguiram sem interrupção até cerca das 3h da manhã, totalizando 171 chamadas no período de uma hora e meia.
Do lado operacional, a central coordenou as equipes de socorro e registrou os primeiros relatos chegados do local: um dos primeiros socorristas comunicou “Primo bilancio: tre ustionati gravi”. Logo depois, uma atendente informou ter recebido notícia de uma explosão, “Ho quattro vittime decedute e almeno una trentina di feriti”, o que levou o operador a ordenar o acionamento do piano catastrofe.
As gravações também registram telefonemas de parentes em busca de informações: pais perguntando pela filha e ouvindo a mesma resposta operacional: “Non posso dirle dove sia sua figlia o se sia lì”. Esse conjunto de chamadas ajudou a compor o quadro inicial da tragédia que, segundo as autoridades, resultou em 40 mortos e 116 feridos.
No plano jurídico-institucional, houve um avanço ontem: o Escritório Federal de Justiça da Suíça confirmou que a Procura do Vallese atendeu à rogatória da Procura de Roma, concedendo assistência judiciária à Itália. Na prática, as autoridades italianas terão acesso às provas já reunidas pela investigação suíça, respeitando os direitos previstos em lei para as partes envolvidas.
Do ponto de vista da apuração, o material das chamadas telefônicas é um documento-chave: além de fornecer a cronologia dos eventos, revela o estado de consciência das vítimas, a sequência de alertas e as primeiras impressões dos socorristas. O trabalho agora exige rigor documental, peritagens técnicas e o cruzamento de registros — inclusive das gravações do sistema de emergência — para reconstruir, com precisão, a dinâmica do incêndio e apontar responsabilidades.
A sequência de 171 chamadas em 90 minutos traduz o colapso humano que se abateu sobre Crans-Montana e torna imprescindível a cooperação transfronteiriça entre Suíça e Itália para garantir transparência na investigação e acesso às evidências. Seguiremos na apuração, cruzando fontes e privilegiando os fatos sem ruído narrativo.






















