Carmelo Cinturrino, assistente-chefe da polícia, é agora alvo de investigação por suposto homicídio voluntário de Abderrahim Mansouri, de 28 anos, no boschetto de Rogoredo, em Milão, no dia 26 de janeiro. A apuração da Procuradoria aponta que, depois do tiro que deixou Mansouri agonizando no chão, Cinturrino teria informado a outros agentes que já havia acionado o socorro — informação que, segundo as investigações, não corresponde à realidade.
Fontes judiciais e os depoimentos colhidos ontem na sequência dos interrogatórios de quatro policiais — indagados por favorecimento e omissão de socorro — revelaram que a chamada aos serviços de emergência teria sido feita mais de vinte minutos após o jovem ser alvejado. Esse intervalo coincide com o cálculo feito pelos investigadores, que apontam para cerca de 23 minutos de atraso entre os fatos e o acionamento do 118.
Os quatro agentes, defendidos pelos advogados Massimo Pellicciotta, Antonio Buondonno e Matteo Cherubini, prestaram depoimento ontem perante o procurador Giovanni Tarzia e a Squadra mobile. Em declarações que constam dos autos, eles negaram participação direta no homicídio. Segundo os relatos — com posições distintas entre os policiais (um estava próximo a Cinturrino no momento do disparo; os demais só chegaram depois) —, teria sido Cinturrino o responsável por gerir os passos subsequentes à intervenção, inclusive sustentando afirmativas falsas sobre o acionamento imediato do socorro.
Do material obtido pela investigação dirigida pelo procurador Marcello Viola, incluindo a análise das câmeras do entorno, emerge também que o colega que estava mais próximo a Cinturrino teria se dirigido ao comissariado Mecenate e retornado ao local munido de uma bolsa. Segundo os autos, os demais agentes não sabiam o conteúdo da bolsa. A hipótese da acusação é de que uma réplica de arma — possivelmente uma pistola de alarme — tenha sido colocada na cena posteriormente, invalidando a versão de que Mansouri teria empunhado uma arma e justificando, assim, a alegada legítima defesa apresentada por Cinturrino.
As defesas técnicas que acompanham a família da vítima — as advogadas Debora Piazza e Marco Romagnoli — já haviam indicado nos seus pareceres defensivos elementos que coincidem com essa reconstrução: a inexistência de prova de que Mansouri tinha uma arma em punho no momento do disparo.
O inquérito também recolheu dados telefônicos que apontam que, pouco antes de ser morto, Mansouri estava em ligação com uma terceira pessoa, supostamente outro traficante. Em determinado momento dessa conversa, a interlocução advertiu: “atenção, há a polícia, fuja”. A mesma pessoa tentou retornar a ligação, que não foi atendida — momento a partir do qual os investigadores calcularam o intervalo de 23 minutos até o chamado ao 118.
Nos autos e nos depoimentos surge ainda uma descrição do perfil operacional de Cinturrino pelos colegas: mais velho e visto como o mais experiente do grupo, mas com condutas consideradas “borderline” em operações anteriores, incluindo episódios de uso de força física contra usuários de drogas e pequenos traficantes na área.
Na manhã seguinte aos interrogatórios, fontes da investigação afirmaram que a apuração seguirá com cruzamento de provas técnicas, periciais e testemunhais para definir responsabilidades criminais. A Delegacia e a Procuradoria reiteram o compromisso de esclarecer os fatos com total isenção e rigor processual.
Apuração em curso: os dados brutos reunidos — imagens, registros telefônicos, depoimentos e perícias — continuam a ser confrontados para construir uma cronologia precisa dos fatos e eliminar ruídos ou versões contraditórias.






















