Por Giulliano Martini — Apuração in loco e cruzamento de fontes. Uma nova perícia, encomendada pela família de Chiara Poggi, aponta que teria sido impossível, para qualquer pessoa que percorresse o trajeto reconstruído, evitar a segunda grande poça de sangue mapeada no interior da casa de Garlasco. O trabalho em curso sobrepõe digitalmente a ortofoto da área onde foi localizada a mancha com a camminata e os movimentos atribuídos a Alberto Stasi no processo de 2009.
Os advogados Gian Luigi Tizzoni, que representa os pais de Chiara, e Francesco Compagna, advogado do irmão Marco Poggi, contrataram um grupo de peritos em informática forense para reproduzir com precisão a posição da chamada “blood pool” no degrau zero da escada que conduz ao semienterrado, local onde o corpo foi encontrado e que estava parcialmente oculto por uma porta sanfonada.
Nos autos do processo existe um vídeo no qual o perito Giuliano Geminiani simula o acesso à cantina e a passagem pela única “void area” do degrau — a área vazia do lado direito — onde, segundo sua própria reconstrução, poderia haver a possibilidade de que as solas não tivessem interceptado sangue. Essa reconstrução foi concluída no primeiro julgamento por peritos nomeados pelo juiz Stefano Vitelli e por Nello Balossino.
A versão civil contestou a perícia desde então, apontando falhas metodológicas: a simulação não foi realizada dentro da residência de Garlasco, utilizou reproduções em vez do ambiente real e não experimentou de forma fiel a descida dos “um ou dois” degraus que Stasi, em depoimento, admitiu ter pisado enquanto procurava pela namorada. Essas objeções levariam, em 2013, ao anular da absolvição pelo Supremo Tribunal de Cassação, abrindo caminho para novas investigações.
Segundo fontes que acompanham o novo exame, as primeiras sobreposições digitais já realizadas pelos peritos dos Poggi indicam que, ao reproduzir fielmente os passos executados por Geminiani na perícia anterior — inclusive o movimento para trás após a abertura da porta sanfonata — seria impossível não interceptar o líquido sanguinolento presente no degrau. Em termos práticos, a movimentação exigiria um trajeto em “zig‑zag” por entre múltiplas manchas, cenário que as simulações qualificam como inviável sem contaminação das solas.
O aprofundamento atual procura, com técnica digital, eliminar margens de dúvida sobre a correlação entre trajeto e manchas: a ortofoto permite mapear a extensão exata da mancha e confrontá‑la com as coordenadas dos passos reconstruídos no processo de 2009. A conclusão preliminar, conforme apurado, fortalece a tese da impossibilidade física de evitar o contato com a segunda poça de sangue.
Trata‑se, neste estágio, de uma etapa pericial ainda em desenvolvimento. A estratégia da defesa e eventuais novas contestações técnicas são previsíveis: questionar a fidelidade das reproduções digitais, a calibragem dos parâmetros usados para sobreposição e a eventual diferença entre as solas usadas nas simulações e as solas reais examinadas nos autos. Cabe também a verificação da cadeia de custódia das imagens e a confirmação da escala e do ponto de referência na ortofoto.
Como repórter no terreno e com 48 anos de vivência na Itália, registro que o impacto dessas novas provas digitais pode ser decisivo para reabrir discussões técnicas que, no passado, já provocaram reverberações judiciais significativas. O que se vê é um avanço da investigação técnica: a realidade traduzida em pixels pode virar elemento central na busca por uma resposta definitiva sobre o que ocorreu na noite de 13 de agosto de 2007.






















