Por Giulliano Martini — A edição 2026 do Carnevale di Viareggio abre espaço explícito à paz, mantendo, porém, o registro ácido da sátira política. A programação começa no domingo, 1º de fevereiro, com repetições nos dias 7 (sábado), 12 (quinta-feira), 15 (domingo), 17 (terça-feira) e 21 de fevereiro (sábado) na passeggiata a mare da cidade toscana.
O tema das numerosas guerras em curso no mundo é um dos eixos centrais da festa: os grandes carros de papel machê voltarão a tratar conflitos, tensões entre potências e as consequências humanitárias com linguagem direta e simbólica. Este ano, o Carnaval de Viareggio é dedicado oficialmente à paz, decisão que orientou roteiros e escolhas estéticas das obras concorrentes.
Na cartografia satírica dos mastodontes alegóricos, o foco é sobretudo internacional. Entre as figuras mais representadas estão Donald Trump (marcado em múltiplos trabalhos), Xi Jinping, Vladimir Putin e Ursula von der Leyen. O carro “La gallina dalle uova d’oro”, assinado por Alessandro Avanzini, traça um diagnóstico frio da economia global: o mundo gira em torno dos lucros ligados ao comércio de armas.
O tom muda em “999”, de Carlo e Lorenzo Lombardi — dupla vencedora da edição anterior — que trabalha a memória e a dor com referência à história de Sadako Sasaki, a menina japonesa vítima da bomba de Hiroshima que dobrou centenas de tsurus de papel na esperança de cura. A peça é mais poética, e traz à avenida um contraponto humano ao debate geopolítico.
O confronto entre potências volta a aparecer em “Gran Casino”, de Lebigre e Roger, onde Trump, Xi Jinping, Vladimir Putin e Benjamin Netanyahu são colocados num mesa de jogo que define destinos globais. “I samurai del potere”, de Luigi Bonetti, repete a imagem bélica: três samurais com as feições de Trump, Xi e Putin travam uma batalha pelo controle do planeta.
Não se trata apenas de guerra. Os autores apontam para questões sociais e ambientais: “Nemmeno con un fiore” (Umberto, Stefano e Michele Cinquini) aborda a violência contra as mulheres; “Nel campo dei miracoli” (Jacopo Allegrucci) discute a busca de fama e sucesso; “In bocca al lupo” (Luca Bertozzi) aborda o tema da coragem; “The last Hop(e)” trata das mudanças climáticas; e “Io vivo in questo momento” (Roberto Vannucci) explora o desejo de viver o presente.
Os organizadores enfatizam que a escolha temática foi resultado de apuração in loco e do cruzamento de fontes junto aos carriéristi e à direção artística: a intenção é que o festival mantenha seu perfil de crítica social sem abandonar a atenção à memória e às emergências contemporâneas. Rigor técnico e imagética forte marcam a edição, com grande expectativa sobre a recepção do público e a repercussão internacional.
Em síntese: o Carnevale di Viareggio 2026 propõe uma narrativa onde a paz é o fio condutor, entremeada por críticas severas às dinâmicas de poder globais, preservando a função tradicional do carnaval como espaço de linguagem política e memória coletiva.





















