Putignano renovou neste sábado à noite uma tradição secular. A 632ª edição do Carnevale di Putignano — dedicada ao tema do paradoxo — teve início às 19h de 7 de fevereiro e seguiu, como manda a rotina centenária, pelo anel elíptico extramural que circunda o centro histórico.
Apuração in loco e cruzamento de fontes confirmam a presença, entre os destaques desta edição, de sete carri de primeira categoria que abordam temas sociais sensíveis: feminicídio, ludopatia (dependência do jogo), corrida (a prática de touradas), inteligência artificial, deficiência, overtourism e fim de vida. A disputa pelo prêmio das alegorias será decidida por uma júri técnica composta por especialistas vindos de toda a Itália.
Além do veredito dos peritos, a organização abriu espaço para a participação popular: moradores e visitantes podem manifestar preferência por meio de um QR code que integra um “colégio” de voto público. A afluência segue elevada — na noite de 1º de fevereiro a festa recebeu cerca de 20.000 pessoas; em 2024 o evento registrou o recorde de 85.000 visitantes.
“Hoje representamos o maior atrator turístico da região no que diz respeito à desestacionalização do turismo. É o evento com o maior afluxo de pessoas fora do período em que a Puglia já tem maior movimento”, disse o prefeito Michele Vinella, em entrevista concedida aos meios locais.
O chefe do executivo municipal explicou o projeto em curso: uma operação de “change management” na estrutura da Fondazione Carnevale, que até recentemente atuava apenas como organizadora do evento. A estratégia agora é transformar a instituição em motor de emprego e programação cultural ao longo dos 12 meses do ano, para tornar Putignano atraente não apenas no calendário turístico, mas também no mapa cultural.
Do ponto de vista técnico, a singularidade das composições está enraizada em duas frentes: o caráter familiar e coletivo das oficinas criativas e a figura do maestro cartapestaio. Em diálogo com a administração regional, busca-se reconhecer e qualificar este ofício como profissão. As competências exigidas, segundo responsáveis locais, vão desde a modelagem da argila até a ferraria das estruturas metálicas, passando por mecatrônica capaz de movimentar as peças e pela “teatralização” que dá vida às obras.
Exemplos práticos das alegorias presentes nesta edição: o “Casinò Mirage”, que materializa a ludopatia com pilhas de cartas e moedas de slot; o “MessIA”, que satiriza uma divindade tecnológica sustentada por cidadãos-follower curvados ao smartphone; a “Ultima Corrida”, que critica a corrida de touros como ritual de violência; e “Lo strano caso dell’uomo che diceva di amare”, que aborda o feminicídio através da narrativa de um agressor.
O mestre papier-mâché Paolo Mastrangelo, responsável por algumas das peças mais comentadas, descreve a operação como uma soma de memória comunitária e técnica especializada. O resultado, nas ruas, é um desfile que agrada tanto às crianças — que têm nos coriandoli motivos de fascínio — quanto aos adultos, que se confrontam com provações e contradições da vida contemporânea.
Relatório final da apuração: o Carnevale di Putignano segue como evento de alta carga simbólica e impacto econômico para a região, mantendo a mistura de folia popular e crítica social que define sua longevidade. A cobertura prossegue com imagens e análise dos vencedores assim que a junta de jurados oficializar o resultado.






















