Apuração in loco e cruzamento de fontes históricas mostram que mesmo a figura que consolidou o monachesimo europeu, São Bento de Núrsia, não ficou imune a intrigas e atentados. Duas tentativas contra o religioso ocorreram no seio de comunidade monástica onde viveu, episódios que a tradição cristã interpreta como miraculosos por terem fracassado.
Os episódios se desenrolaram em ambientes que, segundo relatos, chegaram a remeter às atmosferas do filme O Nome da Rosa: corredores silenciosos, suspeitas internas e acusações que pretendiam corroer a autoridade de um homem reputado por santidade. Ambas as conjuras foram planejadas, executadas e — por fim — falharam. Não foi a violência física, segundo as fontes, mas a tentativa de destruir a reputação e isolar o monge que norteou os planos dos conspiradores.
São Bento, nascido entre 490 e 480 em Nursia (a antiga Norcia), exerceu papel central na organização da vida monástica ocidental. Papa Paulo VI o definiu como “padrona principale dell’intera Europa” em 24 de outubro de 1964. Sua trajetória o levou de Roma — onde abandonou os estudos por desgosto do comportamento alheio — a períodos de retiro em Affile e Subiaco, até a fundação da abadia de Montecassino em 529.
A abadia de Montecassino permanece um lugar-chave para entender esses episódios. Ao longo dos séculos ela foi alvo de destruições e reconstruções (sismos e guerras a demoliram em 577, 883, 1349 e em 1944). Foi precisamente num mosteiro imerso em tensões internas que os atentados contra Bento se cristalizaram: alguns colegas, movidos por inveja ou por interesses eclesiásticos, arquitetaram campanhas destinadas a desprestigiar o religioso e, assim, silenciá-lo.
Fontes antigas, entre as quais os Dialoghi de Gregório Magno, relatam diferentes versões dos fatos, mais ou menos detalhadas. Há, além disso, estudos modernos que ajudam a situar essas narrativas no contexto social e eclesial do século VI. O beneditino e historiador Adalbert de Vogüé, por exemplo, analisa no livro “San Benedetto l’uomo di Dio” as origens do ódio dirigido ao futuro fundador da ordem beneditina, assinalando como a fama de santidade acabava por provocar antagonismos locais.
Os relatos sobre as tentativas de eliminação — sejam as de caráter físico, seja as de difamação — convergem num ponto: o plano dos opositores não obteve êxito. Aquilo que as tradições cristãs descrevem como intervenção divina ou manifestação do destino é interpretado por historiadores como resultado da resiliência institucional de Bento e do apoio popular que o protegia. Em ambos os casos, a tentativa de atentar contra a integridade do monge terminou em fracasso.
Em termos práticos, o episódio ilumina um aspecto menos conhecido do período: a tensão entre projetos individuais de poder dentro dos mosteiros e a construção de novas regras de convivência que Bento promoveria. A regra beneditina buscou criar uma ordem sólida, capaz de resistir a intrigas internas e a pressões externas — algo que, ironicamente, só reforçou a autoridade do seu autor.
Relatos históricos e análise crítica coincidem ao ressaltar que a história de São Bento não é apenas a de milagres e devoção, mas também a de conflitos humanos, estratégia institucional e luta por legitimidade dentro do sistema eclesiástico daquela época. A abadia de Montecassino permanece, até hoje, como testemunho material e simbólico dessa trajetória — um espaço onde a santidade e a contenda humana se encontraram e deixaram marcas que a pesquisa continua a dissecar.
Raio-x do cotidiano: investigando os textos, confrontando tradições e identificando as linhas mestras dos relatos, resta claro que as duas tentativas contra São Bento são parte integrante do processo que consolidou o beneditinismo no ocidente, contra intrigas, difamações e atentados à reputação dos fundadores religiosos.



















