Por Giulliano Martini, correspondente — Relatório técnico baseado em apuração e cruzamento de fontes revela que o consumo elevado de alimentos ultra-processados está associado a aumento da mortalidade entre pessoas que já receberam diagnóstico de câncer. A pesquisa foi conduzida pela Unidade de Epidemiologia e Prevenção do Irccs Neuromed, em Pozzilli (Isernia), com financiamento da Fundação Airc para a pesquisa sobre o câncer.
O estudo analisou dados do projeto Moli-sani, que acompanhou 24.325 residentes do Molise com 35 anos ou mais, entre março de 2005 e dezembro de 2022. Dentro dessa coorte, 802 participantes (476 mulheres e 326 homens) já tinham histórico de tumor no momento da inclusão e dispunham de informações detalhadas sobre a dieta, obtidas pelo questionário de frequência alimentar do estudo EPIC (European Prospective Investigation into Cancer and Nutrition).
Para classificar os alimentos, os pesquisadores utilizaram o sistema NOVA, que separa os alimentos em quatro grupos segundo o nível e o objetivo do processamento industrial. Os indivíduos foram estratificados conforme a proporção de energia proveniente de alimentos ultra-processados no padrão alimentar.
O levantamento aponta uma associação estatisticamente significativa: entre pessoas já diagnosticadas com câncer, aquelas que consumiam quantidades mais elevadas de alimentos ultra-processados apresentaram maior risco de óbito — tanto por causas relacionadas ao tumor quanto por todas as causas — em comparação a pares com condição de saúde semelhante que adotavam dietas menos processadas.
Os autores destacam mecanismos biológicos plausíveis para explicar o achado. Substâncias adicionadas durante os processos industriais — conservantes, aromatizantes, emulsificantes e outros aditivos — podem interferir em mecanismos metabólicos, alterar o equilíbrio do microbiota intestinal e promover estados de inflamação. Em consequência, mesmo quando um alimento ultraprocessado apresenta perfil calórico ou nutrientes semelhantes ao de um alimento pouco transformado, seu efeito fisiológico pode ser mais danoso.
O estudo reforça preocupações públicas: com o consumo de alimentos ultra-processados em expansão internacional, é urgente avaliar se a redução dessa exposição pode melhorar a sobrevida e a qualidade de vida de pacientes oncológicos. A pesquisa do Neuromed concentra-se na população do Molise, mas a metodologia e os resultados trazem implicações práticas para protocolos nutricionais pós-diagnóstico e orientações clínicas.
Conclusão técnica: o que se come após o diagnóstico de câncer é um fator modificável que pode influenciar a sobrevivência. A evidência apresentada combina apuração rigorosa de consumo alimentar com seguimento de longo prazo e classificação padronizada de processamento, oferecendo subsídios para recomendações clínicas e novas investigações sobre mecanismos biológicos.
Metodologia e notas: coorte de 24.325 participantes (2005–2022), 802 com diagnóstico prévio de tumor, uso do questionário EPIC para avaliação dietética e classificação NOVA para identificar alimentos ultra-processados. Financiamento: Fundação Airc.





















