Por Giulliano Martini — A casermetta Alkamar ainda olha para o mesmo trecho de costa, aparentemente tranquilo. Mas a noite entre 26 e 27 de janeiro de 1976 marcou a história dessa faixa de litoral: dois carabinieri foram mortos no sono e, desde então, o episódio ficou envolto numa névoa de pistas erradas, depistaggi, confissões obtidas sob pressão, processos intermináveis e perguntas sem resposta.
É esse nó que o jornalista Lucio Luca desfaz em L’ultima spiaggia. Alkamar, la strage dimenticata e cinquant’anni di misteri italiani, um saggio raccontato que segue um fio escuro ao longo de meio século de zonas cinzentas e de veridades fáceis. A obra volta o foco para um evento que, apesar da violência e das consequências judiciais, permaneceu à margem do debate público.
“Por que voltar agora a Alcamo Marina?” questiona Luca. A resposta que ele traz é dupla: primeiro, a incompreensível ausência do episódio no panteão das tragédias públicas do país — sem nomes que permaneçam na memória coletiva, com cerimônias contadas e portas fechadas nas narrativas oficiais; segundo, a certeza de que a documentação contém contradições e lacunas que merecem ser reabertas e confrontadas.
Na relectura dos papéis do processo, diz Luca, surgem elementos inquietantes: nomes que reaparecem noutros episódios controversos da história italiana, conexões que vão de casos como o de Impastato e Rostagno até, segundo fragmentos das investigações, episódios internacionais envolvendo Ilaria Alpi e Milan Horovatin. O autor não se limita ao folhear de arquivos: fez apuração in loco, cruzamento de fontes e entrevistas com protagonistas, vítimas e familiares.
O livro dá peso decisivo à dimensão humana do caso. Entre as vozes que atravessam as páginas, a de Peppe Gulotta — ou Giuseppe Gulotta — emerge como núcleo interpretativo. Gulotta, que aos dezoito anos sonhava com a Guarda di Finanza, foi transformado numa peça central de um processo que o levou à prisão. Condenado com outros jovens, passou 22 anos encarcerado por um crime que sempre negou ter cometido. Foram onze processos ao longo de 36 anos até a revisão que, décadas depois, reavaliou sua participação.
O encontro de Luca com Gulotta foi determinante. Mais do que os atos formais dos autos, impressionou a serenidade do homem que sobreviveu à acusação e ao tempo do cárcere sem cultivar ódios explícitos. “Como não enlouquecer?”, perguntou o autor. A resposta do ex-acusado resume a resistência diária: “Eu ia dormir e dizia a mim mesmo: hoje nada aconteceu, mas amanhã algo acontecerá e entenderão que eu não tenho nada a ver com essa matança”. Essa crença tenaz foi, até que ‘amanhã’ enfim chegasse, a âncora que o manteve.
O fio narrativo do livro percorre, assim, não apenas o acontecimento originário — a morte dos dois carabinieri na noite de janeiro de 1976 — mas o labirinto subsequente: investigações com caminhos tortos, interrogatórios duvidosos, sentenças que foram revistas e a persistente interrogação sobre por que um crime tão sanguinário não logrou maior atenção pública. Luca coloca em xeque a versão consolidada e chama a atenção para a existência de veridades convenientes, itens de ortodoxia processual que às vezes servem mais para encobrir do que para esclarecer.
Do ponto de vista jornalístico, o trabalho é um raio-x: apuração em face, leitura crítica de documentos, comparação de depoimentos e insistência em cruzar fontes. Não é um livro de teorias conspiratórias; é um levantamento de fatos brutos que expõem omissões e contradições. A proposta é clara: reabrir a discussão, devolver nomes às vítimas e rastrear responsabilidades — políticas, institucionais e judiciais — que permaneceram demasiadas vezes nas sombras.
Ao concluir, Luca não reclama respostas fáceis. Sinaliza, contudo, a urgência de recuperar a memória pública sobre o que ocorreu em Alcamo Marina e de manter a inquietação: o passado mal explicado contamina o presente e impede que lições essenciais sejam extraídas. Para quem busca a verdade sem emulsões narrativas, o livro oferece um percurso documental rigoroso que desafia a complacência com as versões estabelecidas.
Alcamo Marina volta, assim, ao centro do debate — não por revanchismo histórico, mas por obrigação civil: a história dos que foram acusados, julgados e depois postos em questão exige ser contada com precisão e respeito ao dado verificável. É essa a proposta de Lucio Luca, e é esse o chamado que a investigação responsável deve atender.






















