Por Giulliano Martini — A saída pública de Roberto Vannacci da Lega e o anúncio de um movimento à direita, batizado de Futuro Nazionale, escancararam uma crise orgânica e estratégica no partido liderado por Matteo Salvini. O episódio, apurado por cruzamento de fontes e relatos diretos à imprensa, revela faturas políticas que o líder do Carroccio terá de pagar em curto prazo.
Segundo relatos, o próprio Vannacci teria dito a Salvini: “Ti voglio bene ma le nostre strade sono diverse” — frase curta que, traduzida em termos práticos, marca a desfiliação do general nostálgico da X Mas e a intenção de construir uma nova alternativa à direita da coalizão, com traços abertamente xenófobos e identificáveis por laivos de fascismo.
O movimento anunciado por Vannacci é descrito por interlocutores como uma tentativa de ocupar espaço à direita tanto de Fratelli d’Italia quanto da Lega. A reação interna no norte do país — especialmente entre colonnelli lombardos e veneti — não foi uniforme: fontes próximas ao governatore Luca Zaia registraram celebrações discretas, enquanto setores do partido centralizado em Roma veem a saída como um golpe político duríssimo.
O enfraquecimento da Lega nos indicadores eleitorais é um dado incontestável no diagnóstico interno: sondagens recentes colocam o partido entre 7% e 8%, um patamar distante dos picos ao redor de 30% verificados anos atrás. O fenômeno, nas palavras de quem acompanha a direção leghista, é fruto das próprias opções do líder — entre elas, a promoção do teórico e provocador do chamado “Mondo al Contrario” a vice-secretário, numa tentativa clara de deslocamento à direita para recuperar eleitores.
Houve expectativas, dentro da direção, de que a aliança tácita com figuras como Vannacci rendesse vitelos eleitorais vindos de um eleitorado mais radical. A questão agora é prática e numérica: que destino terão os cerca de meio milhão de votos que o general teria trazido à Lega? Parte do aparato do partido teme que esses votos migrem para o novo partido ou se espalhem, fragilizando ainda mais a coesão do centro-direita.
Em tom técnico, a leitura para quem acompanha a cena política em Roma é simples: a operação de Salvini para recuperar terreno explodiu parcialmente nas suas mãos. O momento impõe ao líder leghista uma exigência de autocrítica e de recalibração estratégica — algo que, segundo analistas, poderia incluir desde mudanças na equipe até uma revisão da linha política pública.
Do lado institucional e democrático, a preocupação é explícita. Observadores que valorizam a Constituição e o legado antifascista da República manifestaram esperança de que o novo projeto de Futuro Nazionale não prospere; caso contrário, as consequências eleitorais e de legitimação pública poderão recair em primeiro lugar sobre a Lega.
Dentro do partido, vozes como a do ex-deputado Claudio Durigon — citadas pela imprensa — apelam para que Vannacci permaneça, argumentando que soluções alternativas só beneficiariam a esquerda. O confronto, portanto, não é apenas sobre lideranças pessoais: é sobre a recomposição do quadro político da direita italiana.
Em termos de apuração, os fatos brutos até agora são estes: saída pública de Vannacci, anúncio de um novo partido identificado com ideias de extrema direita, impacto simbólico e potencialmente eleitoral para a Lega, e uma inevitável disputa sobre os votos e espaços políticos à direita. Seguiremos o desenvolvimento com cruzamento de fontes e monitoramento das reações internas no Carroccio e dos demais atores do centro-direita.





















