Janeiro confirmou a Itália como palco central da moda masculina. Entre a 109ª edição do Pitti Uomo e a Milano Fashion Week, o circuito italiano consolidou a conexão com mercados estrangeiros e buscou sustentar o consumo doméstico. Em apuração in loco e após cruzamento de fontes, chama atenção o papel de destaque do segmento de pelletteria e acessórios — o único segmento italiano em crescimento, com alta de +5,6% em 2024 frente a 2023.
Nas passarelas e nos showrooms, as novidades transitam entre a tradição das formas clássicas e a experimentação técnica. Entre os focos principais estiveram as calçados, as sneakers, os mocassinos, as acessórios de viagem e as sciarpe (cachecóis), que dominaram mesas, vitrines e desfiles durante as semanas dedicadas ao menswear.
O histórico fabricante milanês Fratelli Rossetti apresentou sua leitura para o outono-inverno 26/27 na semana de Milão. A casa aposta no clássico mocassino Brera, reinterpretado com macro costuras em contraste que percorrem toda a pala, criando um padrão geométrico com efeito semelhante a um matelassê. A variante Brera Cut vai além do aspecto estético: propõe uma desmontagem controlada da tomaia, abrindo possibilidades de combinações cromáticas e soluções construtivas inovadoras — uma aposta na técnica tanto quanto na forma.
Também em Milão, a marca marchigiana Santoni lançou a coleção Aurora, inspirada na luz antes do nascer em dias frios. A linha transita entre modelos tradicionais e propostas esportivas, como o ankle boot Carlo, o Chelsea Easy Nova e a sneaker Easy Bounce Mountain. O grande destaque técnico é a Velatura, técnica artesanal de coloração em camadas que cria variações subtis em tons invernais — marrons, vermelhos, verdes e toques de laranja.
Na mesma tendência de reverência ao feito manual com linguagem contemporânea, Doucal’s (fundada em 1973 por Mario Giannini) apresentou a coleção Gentle Winter. A proposta privilegia cores e formas que comunicam conforto e aconchego, mantendo o respeito pelo know-how tradicional e ao mesmo tempo introduzindo elementos de inovação construtiva, uma linha coerente com a história da marca.
Além das calçados, o circuito de feiras evidenciou o fôlego dos acessórios de viagem. Expositores e marcas mostraram soluções que fundem couro e tecnologia — entre elas, malas com sistemas de abertura por impressão digital, fechaduras eletrônicas integradas e compartimentação pensada para o novo fluxo do viajante contemporâneo. O movimento aponta para um mercado que exige segurança, praticidade e estética alinhada ao vestuário masculino.
As sciarpe e pequenos acessórios (luvas, cintos, pochetes redesenhadas) completaram o quadro: peças que reforçam utilidade sem sacrificar a estética. Em conjunto, o que aparece claro no balanço das mostras é a tentativa de conciliar tradição e modernidade — a Itália mantém seu capital cultural de pelletteria e o traduz em experimentos técnicos, mantendo o pé no ofício artesanal.
Conclusão: Pitti e Milão apresentaram um raio-x do outono-inverno 2026 centrado na solidez do artesanato e na busca por inovação prática. A pelletteria italiana, ao registrar crescimento em 2024, reconfirma sua importância estratégica; e as novidades vistas sinalizam que o setor pretende dialogar com novas demandas — desde conforto térmico até integração com tecnologia pessoal — sem abandonar as formas que fizeram sua tradição.



















