Por Giulliano Martini — Apuração in loco e cruzamento de fontes. A terceira noite do Festival no teatro Ariston foi marcada por um roteiro claro: levar a audiência ao esgotamento. A direção de cena de Carlo Conti pareceu apostar na exaustão como método, estendendo a programação até cerca de 1h da madrugada e preenchendo o tempo com números que pouco acrescentaram ao confronto musical.
O espetáculo alternou momentos de pouca substância com exceções pontuais de profissionalismo: a gag de Ubaldo Pantani, um dos raros lampejos de técnica no palco, e a presença internacional de Irina Shayk, que teve impacto mais visual do que artístico. A execução prática do formato, contudo, virou um exercício de resistência para quem acompanhava.
O auge emotivo da noite foi o dueto entre Eros Ramazzotti e Alicia Keys: uma interpretação de L’Aurora seguida de um bis ao piano de Empire State of Mind. Esses minutos provaram que, quando há voz e arranjo na frente, a plateia responde com arrepio — um contraste direto com a dependência ao autotune que domina parte da edição.
No bloco dos chamados “Big”, as melhores cartadas já haviam sido gastas em noites anteriores. Sal Da Vinci entregou uma canção destinada a se tornar trilha sonora de cerimônias e matrimônios pelos próximos anos — produto comercial travestido de sentimento. Raf, por sua vez, praticou o exercício do arquivo: referências a Grignani e Zarrillo tão explícitas que beiraram o pastiche.
Serena Brancale apresentou uma faixa de delicadeza melodramática, quase cinematográfica, que poderia facilmente figurar em um roteiro infantil. A interpretação emociona, mas a escolha estética desloca-a do palco competitivo do festival para um campo mais seguro e singelo.
Três artistas mantiveram a formalidade técnica esperada: Malika Ayane, Mara Sattei e Arisa mostraram classe — peças de alta-costura musical que, no entanto, não funcionam como hits imediatos. Leo Gassmann foi traído pela emoção em alguns momentos vocais, enquanto Michele Bravi converteu a própria vulnerabilidade em comunicação direta com o público.
Outros nomes, como Maria Antonietta & Colombre, Tredici Pietro, Renga, Eddie Brock, Samurai Jay e Luchè, passaram pela tela sem deixar impressão duradoura: uma sequência de interrogações artísticas que não repercutiram. Já Sayf, escalado para o fim da noite, carregou a penalidade de se apresentar após um dia inteiro de show — situação que dilui qualquer impacto performático.
Ao final, a “gilhotina” do voto mostrou outra face do festival: as cinco primeiras posições — em ordem alfabética — foram Arisa, Luchè, Sal Da Vinci, Sayf e Serena Brancale. Um recorte que revela mais sobre a mecânica do televoto e das dinâmicas de programação do que sobre a qualidade artística consolidada.
Conclusão técnica: a terceira noite de Sanremo funcionou como um teste de resistência para plateia e crítica, confirmando que o formato atual privilegia espetáculo e estratégia de produção em detrimento de sequência crítica de canções memoráveis. O festival segue, assim, uma equação conhecida: ritmo extenso, picos pontuais de brilho e muitas lacunas a serem preenchidas pela próxima rodada.






















