A lezione magistrale do governador da Bankitalia, Panetta, na Universidade de Messina, mereceu destaque da imprensa. O tema — Investir no futuro: jovens, inovação e capital humano — é central para a economia italiana, mas a apresentação deixou um sentimento claro de desapontamento após a apuração e o cruzamento de fontes.
O diagnóstico inicial do governador não foi novo: a baixa produtividade econômica é o problema número um para a Itália e está estagnada há cerca de um quarto de século. No discurso foi lembrado que, desde 2000, os salários no país permaneceram praticamente congelados, enquanto na Alemanha houve um aumento de cerca de 21%. Mesmo assim, Panetta não aprofundou as causas desse declínio persistente; limitou-se a apontar que, nos últimos anos, os rendimentos das famílias foram em boa parte sustentados por políticas fiscais — isto é, pelo débito público e por intervenções do Estado.
É notável a mudança de tom dos governadores: em outra época o endividamento público era tratado como um risco a evitar; agora se reconhece que políticas fiscais expansionistas têm efeitos paliativos, ainda que transitórios. A constatação é pertinente, mas insuficiente: a real questão é quais medidas estruturais permitem transformar um impulso fiscal temporário em crescimento sustentável.
No campo da inovação, a intervenção de Panetta ofereceu poucas novidades analíticas. Do lado da oferta, reiterou-se um fato já conhecido: o Estado italiano investe pouco em pesquisa. O ponto novo — que o governador omitiu — é a mudança do eixo da pesquisa de ponta, cada vez mais deslocado do setor público para corporações privadas de grande porte. A inovação em setores estratégicos, como o médico e o informático, hoje é financiada por gigantes quase-monopolistas.
Desse processo emerge uma forma de privatização da despesa em pesquisa e desenvolvimento, que pode ser caracterizada como uma privatização parasitária: grandes empresas capturam recursos públicos via subsídios e créditos fiscais generosos, enquanto o Estado abre mão de receitas tributárias porque muitas multinacionais beneficiárias operam em jurisdições com regimes fiscais favoráveis. Em síntese, inova-se com dinheiro público, mas os lucros e vantagens fiscais escapam ao fisco nacional. Sobre esse ponto crítico — o financiamento privado da inovação sustentado por apoio público e brechas fiscais — Panetta não disse uma palavra, como se estivéssemos ainda nas reflexões clássicas de meados do século passado.
O mundo mudou. Se hoje uma viagem espacial pode ser liderada por um bilionário com capital privado em lugar da agência estatal correspondente, existe uma diferença substancial na governança e nas externalidades desse processo. Essa transformação exige uma leitura contemporânea da relação entre investimento público, incentivos privados e regras fiscais — leitura que faltou na lectio.
Do lado da demanda, o debate também ficou raso. Há obstáculos evidentes às empresas que querem investir: estruturas empresariais demasiadamente fragmentadas, dificuldade de acesso a financiamento de risco, fraca procura interna e rigidez regulatória que penaliza a escala e a modernização. A política industrial necessária deveria abordar barreiras à concorrência, facilitar a agregação de empresas, ampliar linhas de capital de risco e reduzir custos administrativos. Essas propostas práticas e direcionadas não apareceram no discurso.
Quanto ao capital humano, Panetta reconheceu a importância tanto das habilidades práticas quanto das teóricas, mas ofereceu poucas indicações sobre reformas educacionais, formação profissional e políticas de retenção de talentos que expliquem como reverter o êxodo de jovens qualificados. Investir em educação e formação contínua é condição necessária para transformar inovação em produtividade, mas faltaram propostas concretas sobre financiamento, governança acadêmica e integração entre universidades e empresas.
Em resumo, a lectio na Universidade de Messina traçou um diagnóstico conhecido e correto sobre problemas estruturais — produtividade, salários estagnados, lacunas no financiamento à pesquisa — mas não explorou as linhas de ação que poderiam transformar esse diagnóstico em políticas públicas concretas. A apuração in loco e o cruzamento de fontes indicam que a oportunidade de apresentar um roteiro operacional ficou perdida. Resta, para quem faz notícia e análise, o dever de traduzir esses fatos brutos em prioridades públicas mensuráveis: fortalecer pesquisa pública, condicionar incentivos a contrapartidas claras, combater a erosão fiscal, fomentar capital de risco e reformar formação profissional. Só assim a retórica sobre inovação e capital humano terá impacto real na produtividade e nos salários dos italianos.






















