Apuração in loco e cruzamento de fontes: o fim de semana da Milão Fashion Week dedicada à moda masculina deixou clara uma divisão estrutural entre identidade real e armações comunicativas. Com poucas passarelas formais e muitas apresentações, emergiu uma leitura limpa — aquilo que funciona vive da substância; o resto é embalagem.
No vértice da análise esteve, mais uma vez, Prada. A dupla criativa formada por Miuccia Prada e Raf Simons ofereceu a grilha de leitura mais útil para interpretar a temporada outono/inverno 2026: a proposta não é meramente revivalista, e sim um exercício racional sobre como requalificar o conhecido. A sfilata no Deposito da Fondazione Prada, transformado em câmara de obra simbólica, materializou uma ideia central: nada se apaga de fato, tudo precisa ser reprocessado com precisão.
Os fatos brutos do desfile traduziram esse princípio. Trenchs e casacos finos, camisas abotoadas nas costas, punhos alongados e duplos, blazers justos, calças secas e chapéus comprimidos que quase se incorporam aos exteriores compuseram um guarda-roupa reconhecível, sem cair no déjà-vu. A direção de Raf Simons reforçou o valor de trabalhar com o arquivo como matéria-prima, não como consigna nostálgica.
Do outro lado do espectro, marcas tentaram sufocar vácuos criativos com narrativas frágeis. O caso paradigmático foi o de Dolce & Gabbana, cujo manifesto contra estereótipos naufragou em uma passerella que acabou por amontoar os mesmos arquétipos que pretendia contestar — uma leitura criticável também por limites de inclusão no casting e na construção simbólica.
Também em nota de alerta está Lessico Familiare, projeto que tentou elevar o tom experimental e acabou por se refugiar no “famolo strano” — escolhas extravagantes que correm o risco de confundir projeto estético com exuberância grátis, sem um fio condutor claro.
Dsquared2 manteve a receita dos efeitos cenográficos: shows que geram impacto instantâneo e viralidade nas redes, capazes de provocar o “wow” momentâneo. No entanto, esses picos de excitação não bastam para mascarar os sinais de crise que o próprio selo demonstra em uma escala mais ampla.
Entre poucos desfiles e muitas apresentações, emergiu uma pergunta basal: ainda é possível construir novidade a partir do já visto? A resposta prática vem de quem domina a técnica e o discurso ao mesmo tempo. Prada demonstrou que a releitura crítica do arquivo pode gerar produtos estéticos relevantes sem apelar ao pastiche. Outros, porém, gravitam entre o enfeite e a repetição.
Um capítulo à parte é a expectativa pela primeira grande apresentação de Giorgio Armani após a ausência simbólica do “re Giorgio”: há curiosidade sobre se a maison confirmará uma continuidade clássica ou aproveitará o momento para redefinir códigos.
Em suma — ra Rio-x do cotidiano da moda masculina apresentado em Milão: a semana confirmou que rigor conceitual, coerência de casting e clareza de processo são hoje diferenciais decisivos. Entre top e flop, os vencedores foram aqueles que demonstraram sinergia entre conteúdo e forma; os perdedores, os que levaram a comunicação a substituir a construção real do vestuário.
Relato produzido com atenção à precisão dos fatos e à observação direta dos desfiles e apresentações. O balanço final é simples e técnico: a moda masculina encontra-se em uma encruzilhada entre arquivo e invenção — e apenas quem administra esse atrito com método sai fortalecido.


















