Roma — O anúncio do governo Meloni sobre um suposto Piano Casa Italia voltou a centralizar o debate público, mas a diferença entre o discurso e os dados concretos revela uma intervenção mais de natureza eleitoral do que um plano efetivo de política social. Em apuração cruzada com dados do Fio-Psd e com a própria lei de bilancio, constata-se uma lacuna entre promessas, números e medidas práticas.
Nos primeiros cinco dias de 2026 foram registradas 10 mortes de pessoas sem-fixa-domicílio, segundo relatório do Fio-Psd. Em 2025, a mesma fonte já havia documentado uma verdadeira “strage invisibile”: 414 óbitos ao longo do ano. Os mortos nos primeiros dias de 2026 tinham idades entre 25 e 70 anos e foram contabilizados em diferentes regiões: 3 na Lombardia (Ostiglia, Taleggio e Milão), 2 na Toscana (ambas em Florença) e 1 caso em cada uma destas regiões — Abruzzo, Puglia (Castellana Grotte), Campania (Capaccio Paestum), Lazio (Roma) e Veneto (Treviso).
As causas apontadas pelo levantamento mostram o caráter estrutural do problema: 6 em 10 mortes ocorreram por mal-estar geral, acrescidas de 1 por toxicodependência, 1 por infarto, 1 por hipotermia e 1 por agressão/assassinato. O quadro expõe o elo direto entre a falta de políticas habitacionais adequadas, a insuficiência de acompanhamento continuado pelos serviços de saúde e a mortalidade entre a população sem-teto.
O diagnóstico técnico é claro: o Serviço Nacional de Saúde garante acesso emergencial, mas falha em continuidade assistencial para quem vive na rua. Somado a isso, falta uma política habitacional estrutural destinada a atender as necessidades específicas dessa população — programas do tipo Housing First ou habitação social pública dirigida a pessoas em situação de rua estão ausentes do repertório atual.
Na arena política, a presidente do Conselho, Giorgia Meloni, e o ministro Matteo Salvini têm apresentado, de forma recorrente, um projeto de “Piano Casa” nacional. Em entrevistas e coletivas, falaram em uma dotação global de cerca de 15 bilhões de euros. Ao confrontar essa afirmação com a legge di bilancio, porém, o rastro dos recursos é mínimo: 50 milhões previstos para 2027 e mais 50 milhões para 2028 — nada alocado explicitamente para 2026 — e uma previsão de 560 milhões distribuídos entre 2028 e 2030. Não há, portanto, um cronograma claro, dotação imediata ou mecanismos operacionais voltados especificamente ao acolhimento de pessoas sem-teto.
No âmbito europeu, a Comissão havia anunciado metas voltadas à eliminação da condição de rua até 2030. O que se materializa, porém, é um Plano Casa Europeu baseado em parcerias público-privadas e num tipo híbrido de social housing. Na prática, segundo análises técnicas, isso tende a produzir unidades que não correspondem nem a habitação pública tradicional nem a programas de acesso direto para pessoas sem-teto, como o Housing First.
O contraste entre as mortes documentadas e a retórica governamental aponta para duas conclusões imediatas: 1) trata-se de uma situação de emergência humanitária contínua que exige medidas imediatas e integradas de saúde, assistência social e habitação; 2) as promessas orçamentárias divulgadas não correspondem a planos operacionais concretos capazes de reverter a tendência de mortalidade.
Na prática, muitos municípios ainda tratam a emergência climática sobre pessoas em situação de rua de maneira reativa — acionando recursos apenas nos picos do frio ou do calor — o que revela uma grave falta de programação e prevenção por parte das administrações locais e do governo central. É um problema que atravessa todo o território nacional, não apenas as metrópoles.
Enquanto o governo anuncia um novo «Piano Casa», os números e a ausência de cronograma e verbas imediatas indicam que, por ora, prevalece a **propaganda** sobre a **política pública**. A realidade traduzida pelos dados é implacável: sem investimento real e mecanismos de continuidade assistencial, a letalidade entre pessoas sem-fixa-domicílio tende a permanecer elevada.






















