La Bohème, de Giacomo Puccini, mantém, ao lado de obras como La Traviata e La Carmen, o lugar de peça mais executada e popular no repertório operístico mundial. O estatuto decorre tanto do quadro romanesco que a obra encarna — a celebração e a tragédia da vida boêmia entre o Romantismo e o Decadentismo — quanto da qualidade musical inquestionável: equilíbrio compositivo, árias que entraram no cânone e a habilidade de Puccini em extrair comoção nas cenas centrais.
O processo de composição da ópera é, por si só, um capítulo da história da música: a concorrência direta com Ruggero Leoncavallo — ambos trabalharam simultaneamente sobre o mesmo tema —; o libreto de Luigi Illica e Giuseppe Giacosa, baseado em Scènes de la vie de bohème (1851) de Henri Murger e adaptado teatralmente com Théodore Barrière; as longas revisões de Puccini entre março de 1893 e o fim de 1895, atestadas pelo manuscrito repleto de rasuras; a estreia em Turim, fevereiro de 1896, sob a batuta de um jovem Arturo Toscanini, que agradou o público apesar do ceticismo crítico inicial — registro exemplar é a frase de Beserzio na La Stampa, que duvidou da permanência da obra nos palcos — e a posterior revisão que culminou nas montagens palermitanas, primeiro no Politeama e depois no Teatro Massimo, abrindo caminho para o triunfo definitivo.
Colocar hoje La Bohème em cena continua sendo um desafio: como reinterpretar sem trair o texto e a partitura? A resposta desta edição em cartaz no Teatro dell’Opera di Roma (Costanzi), com apresentações até 25 de janeiro, passa pela direção musical de Jader Bignamini e pela concepção cênica assinada por Davide Livermore. O resultado, na avaliação desta reportagem, é uma vitória de abordagem.
Apesar de críticas imediatas e resenhas de tom desfavorável publicadas em alguns meios, há elementos desta produção que merecem registro técnico. O uso do videomapping, desenvolvido por D-woke, não é expediente de efeito vazio, mas instrumento integrado ao discurso dramático. Em vez de substituir o palco ou reduzir a força vocal, as projeções dialogam com o texto musical e visual, reforçando leituras simbólicas das cenas.
Uma solução plástica singular consiste em articular os quatro quadros da partitura com sete obras-primas da pintura moderna, extraídas do universo do Impressionismo e de correntes próximas, incluindo a peça icônica de Van Gogh, La Notte stellata (Starry Night). Ver a tela projetada no fundo do palco durante o dueto amoroso mais conhecido — o trecho em que se desenrolam “Che gelida manina” e “Sì, mi chiamano Mimì” — funciona como estratégia visual que homologa o sentido pictórico ao afetivo: a tela não é mero pano de fundo, mas uma leitura que amplia a percepção do espectador sobre memória, sonho e paisagem emocional dos personagens.
Do ponto de vista da direção musical, Jader Bignamini aposta na clareza de textura orquestral e na dinâmica como motor dramático. A opção privilegia fruições de conjunto e leituras que evitam exageros sentimentais, buscando alinhamento rigoroso entre palco e fosso. Este critério também se reflete na escolha de tempos e na articulação das frases, medidas por um pulso que busca o equilíbrio entre verismo e classicismo de fraseado pucciniano.
Em termos de encenação, Davide Livermore evita a desmontagem iconoclasta do material: sua intervenção é de releitura. Ao relacionar pintura e música, ao explorar recursos tecnológicos sem abrir mão do canto como centro, a produção reconcilia tradição e contemporaneidade. É uma aposta que, neste momento, se mostra bem-sucedida.
Resta dizer que a recepção crítica multifacetada é sinal de um teatro vivo: há espectadores que resistem às atualizações visuais, outros que reconhecem o valor de abordagens integradas. Do ponto de vista jornalístico, o veredicto não é de adesão a priori nem de rejeição: trata-se de registrar que a montagem dirigida por Jader Bignamini, com a encenação de Davide Livermore e o videomapping de D-woke, oferece uma leitura técnica e inteligível de La Bohème, capaz de dialogar com públicos contemporâneos sem apagar as coordenadas históricas e musicais da obra.
Apuração in loco, cruzamento de fontes e observação direta das escolhas cênicas e musicais permitem concluir que a produção do Teatro Costanzi vence a difícil scommessa de reinterpretar Puccini com inteligência.
















