Por Chiara Lombardi — A estrada rumo à sustentabilidade é mais tortuosa do que muitos imaginam, mas tornou‑se impossível ignorá‑la — por motivos econômicos, não apenas éticos. Essa é a leitura que se impõe depois do artigo corajoso de Tito Boeri no Eco, que expôs com clareza a hipocrisia de parte do capitalismo diante da crise climática.
Boeri aponta um fenômeno conhecido: empresários e executivos que fizeram da sustentabilidade um mantra corporativo agora recuam — pelo menos na retórica — e se alinham ao negacionismo político que ressurgiu em certos cenários internacionais. A motivação é dupla: proteger os interesses imediatos das empresas e resguardar postos, bônus e emolumentos. A realidade confirma a crítica de Boeri, embora com nuances.
Em muitos casos não houve um abandono total das práticas verdes, mas um deslocamento comunicacional: a ênfase sobre os critérios ESG (Environmental, Social and Governance) diminuiu. A sustentabilidade deixou de ocupar o centro dos discursos institucionais, passou a pesar menos na construção do purpose corporativo. Essa mudança, contudo, revela algo que já sabíamos — e que tem nome no vocabulário crítico: greenwashing. Ou seja, muitos dos anúncios verdinhos antes eram mais posturas de imagem do que compromissos profundos.
Mesmo assim, retroceder é um espejismo perigoso. O inevitável ajuste do Green Deal europeu não significa que possamos abandonar a transição. Deixar a impressão de que o esforço é inútil, justificando‑se com o argumento de que as emissões europeias representam apenas 6% do total mundial, é um engano estratégico — um truque de roteiro que mascara riscos e oportunidades. O governo Meloni, cabe lembrar, deveria ler isso como nota de cautela.
Fala‑se muito do risco de desindustrialização na Europa — e é um risco real. Fala‑se menos, porém, sobre o mercado promissor da economia verde: tecnologias de decarbonização, indústria de veículos elétricos, painéis solares e os ecossistemas da economia circular. Muitas empresas italianas já atuam nesse cenário de transformação; aqui há um potencial competitivo que não pode ser desperdiçado.
Os critérios ESG podem ter saído das manchetes e das campanhas publicitárias, mas seus objetivos continuam centrais nas decisões de investimento. Países que hoje poluem mais que nós estão prontos para vencer a corrida da mobilidade elétrica e da energia limpa. A pergunta que fica — esse é o roteiro oculto da sociedade — é por que, no caso italiano, a promessa de vantagens financeiras para empresas virtuosas nem sempre se concretizou. Muitas firmas esperavam juros mais baixos, melhores condições de financiamento; ficaram desapontadas com intermediários e bancos que, embora erssem paladinos retóricos dos critérios ESG, falharam em transformar discurso em ação.
Em suma: o eco cultural em torno da sustentabilidade exige mais do que slogans. Precisamos de políticas, incentivos e mercados que transformem o compromisso em mudança real — um trabalho de cena e bastidor que moldará o próximo ato da nossa economia e da memória coletiva. O desafio não é apenas ser verde no pôster, mas escrever um novo roteiro económico que faça da sustentabilidade uma vantagem competitiva real.






















