Replicamos a entrevista de Renato Franco com Ermal Meta, republicada em 2025: o artista participa do Festival de Sanremo com a canção «Stella Stellina» e lança o segundo romance, Le camelie invernali, pela editora La nave di Teseo de Elisabetta Sgarbi.
No começo da conferência de imprensa do Festival houve intervenções em tom leve: Carlo Conti ironizou sobre a presença de políticos — «Meloni? Vem se comprar o bilhete» — e a resposta de política que circulou na sala foi igualmente contida: «É FantaSanremo, eu faço o meu trabalho». Mas a conversa com Ermal Meta desviou rapidamente para assuntos pessoais e literários, em um registro de apuração preciso e cruzamento de fontes.
Le camelie invernali é um romance de alcance deliberadamente sombrio. Em cerca de 200 páginas, Ermal Meta abandona o limite temporal dos três minutos de uma canção e dedica-se ao tempo longo do romance para traçar o retrato de um conflito ancestral. A narrativa acompanha duas famílias tragicamente enredadas: dois amigos, Uksan e Samir, ambos com dezoito anos, presos a uma lógica que não permite futuro.
O centro da trama é o Kanun, o código consuetudinário albanês que regula – entre outras normas – a lógica da vendetta: «Se você mata alguém, a família da vítima matará um membro da sua para restaurar a honra. A vingança, porém, não pode atingir mulheres e crianças e não pode ocorrer dentro de casa. Os homens precisam viver reclusos até que a vendetta seja consumada», explica o autor. Segundo os relatos checados por esta reportagem, ainda hoje existem mais de mil famílias que vivem sob a vigência do Kanun, com jovens confinados ao interior doméstico para evitar a morte.
Quando questionado sobre o motivo de ter escrito sobre essa realidade, Ermal foi direto: «É uma consuetudine che riguarda una cultura precisa. Laddove non entra la luce, l’oscurità prospera». Em português: onde não chega a luz, a escuridão cresce. A afirmação é colocada como factual; o livro se propõe a mapear esse espaço escuro e socialmente delimitado.
No plano pessoal, a entrevista traz desabafos que cruzam emoção e biografia: “Não lembro o rosto do meu pai”, disse o cantor — uma frase curta, lapidar, que traduz a lacuna afetiva de uma história migrante. Ermal nasceu na Albânia e saiu do país aos 13 anos. «Senti-me demasiado italiano na Albânia e demasiado albanês na Itália», declarou, sintetizando o deslocamento identitário que o acompanha desde a juventude. «Sinto-me em casa nos dois países, mas são talvez as minhas pátrias que não me reconhecem.»
Sobre a carreira e o equilíbrio emocional, o artista assumiu um diagnóstico de tempo: «Se o sucesso tivesse chegado aos 20 anos, eu teria enlouquecido». Hoje, descreve uma outra prioridade: está em processo de adoção de duas jovens, de 17 e 18 anos. Relatou o impacto da frase que ouviu delas — «a nós ninguém nos quer» — e como essas palavras lhe partiram o coração.
O livro Le camelie invernali sai em 13 de fevereiro e volta o foco para a persistência de tradições que aprisionam e moldam destinos. A abordagem do autor é de reportagem literária: ele fotografa as faíscas da história, decodifica o código que prende gerações e apresenta, com rigor, uma narrativa que busca iluminar uma realidade ainda vigente.
Esta matéria privilegia fatos verificados e o cruzamento de fontes, apresentando a realidade traduzida por quem observa de perto: voz direta, limpeza de narrativas e apuração rígida.






















