Bergamo Film Meeting abre sua 44ª edição com programação que atravessa conflitos contemporâneos e trajetórias autorais. De hoje até 15 de março, o festival apresenta mais de 170 títulos entre curtas e longas, distribuídos nas salas de Piazza della Libertà e no Cinema Teatro del Borgo, em Galleria Piazza Sant’Anna.
Em apuração rígida e cruzamento de fontes, a curadoria aposta em leituras políticas e estéticas do presente. Há homenagem ao mestre Abbas Kiarostami, a dez anos de sua morte; uma retrospectiva sobre a Europa dos conflitos e dos direitos conduzida pela Agnieszka Holland; e olhares para o filtro moral e ambiental da húngara Ildikó Enyedi dentro da seção “Europe, Now!”.
O festival não se esquiva do documentário cru: Padrone e sotto, de Roberto C., ambientado em Nápoles entre classes subalternas sem acesso a dinheiro e educação, é o único filme italiano em competição. É um exemplo do que o evento busca promover: o encontro entre fato bruto e reflexão pública.
A programação também recupera clássicos e cults. A seção “Cult Movies” traz estrelas da era de ouro dos EUA, como Tony Curtis, e nomes consagrados do cinema italiano — homenagem a Louis de Funès, presença de Roberto Benigni e Massimo Troisi com Non ci resta che piangere (legendado para não ouvintes) e o eterno Some Like It Hot por Curtis.
O festival inclui mostras que conversam com a atualidade: em Cinema de animação e no Kino Club há curtas que tratam de migração e memória. Destaque para The Tower, encenado por fantoches e ambientado em um campo de refugiados, e para os curtas do eslovaco Viktor Kubal, que terão sonorização ao vivo por Elio Biffi, o “pinguino tattico”.
O repertório de gênero mantém tradições: a Fantamaratona noturna, este ano caindo num sexta-feira 13, exibe o horror nórdico Lake of the Dead seguido pelo clássico Friday the 13th.
As diretoras artísticas Fiammetta Girola e Annamaria Materazzini enfatizam que a força do festival não é só nas escolhas programáticas, mas também na possibilidade de exibir filmes em seus suportes originais ou em restaurações em 4K — uma estratégia que preserva a experiência histórica e técnica da exibição cinematográfica.
A abertura da Mostra Concorso ocorre com o belga L’étrangère, de Gaya Jiji, que narra a fuga de uma jovem mãe da Síria até Bordéus (Auditorium, às 20h). Antes, às 18h, a Sala dell’Orologio recebe o espanhol Supernatural, de Ventura Durall, primeiro dos 14 documentários da seção “Visti da vicino”. Ainda no primeiro dia figura o austríaco To Close Your Eyes and See Fire, de Nicola von Leffern e Jakob Carl Sauer, testemunho de 2024 sobre o drama bélico de Beirute.
Em linguagem direta e verificação in loco, este é um festival que mapeia tensões globais sem teatralizar o sofrimento: o cinema funciona como ferramenta de análise e debate — não como remédio, mas como espelho e alavanca para discussões públicas.
Locais de exibição: as duas salas CULT! em Piazza della Libertà (Auditorium e Sala dell’Orologio) e o Cinema Teatro del Borgo, em Galleria Piazza Sant’Anna. A programação completa e horários podem ser consultados nos canais oficiais do festival.






















