Apuração in loco e cruzamento de fontes: o relatório anual da Oxfam revela que 2025 foi um ano de prosperidade inédita para os bilionários globais, apesar de guerras, tensões comerciais e crise climática. Pela primeira vez, a contagem ultrapassou 3.000 pessoas com patrimônio bilionário. Entre novembro de 2024 e novembro de 2025, a riqueza líquida dos super-ricos aumentou em cerca de 2,5 trilhões de dólares, atingindo um total estimado em 18,3 trilhões — um salto de +16,2%, três vezes superior à média de crescimento observada entre 2020 e 2024.
Os primeiros 12 nomes no ranking — incluindo Elon Musk, Bernard Arnault, Jeff Bezos e Mark Zuckerberg — detêm hoje fortuna equivalente à metade mais pobre da humanidade. Esse fenômeno, segundo o relatório da Oxfam sobre desigualdade global, alimenta um círculo vicioso bem conhecido: a captura política por parte dos mais ricos.
O documento, apresentado na semana do Fórum de Davos, descreve um “progressivo deterioramento dos princípios democráticos” fruto dessa concentração. A correlação entre fortuna e poder institucional é explícita: um bilionário tem, segundo o relatório, 4.000 vezes mais probabilidade de ocupar um cargo eletivo do que um cidadão comum. Mas a influência não se restringe a cargos formais; ela se estende por mecanismos menos visíveis — financiamentos substanciais, lobby, portas giratórias entre empresas e órgãos públicos e controle de fluxos de informação.
O panorama da mídia global oferece exemplos concretos: sete das maiores corporações do setor pertencem a proprietários bilionários, e uma pequena elite de ultrarricos controla veículos históricos e plataformas centrais ao debate público — o Washington Post, adquirido por Bezos, e X, de Musk, estão entre eles. Segundo a Oxfam, diariamente são gastas 11,8 bilhões de horas em redes sociais fundadas ou controladas por bilionários, o que amplia enormemente a capacidade dessas figuras de filtrar e moldar o que as pessoas veem e acreditam.
O desenvolvimento acelerado da inteligência artificial generativa multiplica esses riscos: a tecnologia facilita a produção e a difusão em massa de informações falsas e manipuladas, ampliando o alcance das estratégias de influência. Para Roberto Barbieri, diretor-geral da Oxfam Itália, “estamos diante da lei do mais rico, que está levando a democracia ao fracasso” — avaliação explícita e fundamentada nos dados compilados.
No plano social, a tendência é igualmente preocupante. A redução da pobreza global estagnou: após décadas de melhoria lenta, os indicadores retornaram aos níveis pré-pandemia e, em várias regiões, como partes da África, a pobreza extrema voltou a crescer. Dados da Banco Mundial citados no relatório apontam que, em 2022, cerca de 3,83 bilhões de pessoas — aproximadamente 48% da população mundial — viviam em situação de indigência.
O resultado prático dessa dinâmica é um redesenho das regras econômicas que favorece privilégios e amplia disparidades, consolidando uma nova elite oligárquica em cujo braço se concentra tanto o poder econômico quanto a capacidade de influenciar a regulação e a agenda pública. A leitura do relatório da Oxfam, à luz dos fatos e do cruzamento de fontes, aponta para um desafio democrático e econômico que exige respostas políticas robustas e transparência efetiva.
La Via Italia — Giulliano Martini






















