Por Riccardo Neri — Em um movimento que combina moda e infraestrutura digital, Mark Zuckerberg e a esposa Priscilla Chan estiveram entre os convidados da apresentação outono-inverno 2026/27 da Prada, realizada nesta tarde na Fondazione Prada, em Milão. Foi a primeira participação do casal na Milano Fashion Week, sentados em primeira fila entre o presidente executivo da Versace, Lorenzo Bertelli, e o CEO do grupo Prada, Andrea Guerra.
A presença do executivo do ecossistema Meta reacendeu especulações sobre um possível acordo envolvendo óculos com inteligência artificial da marca Prada. Nos bastidores do desfile, questionada sobre uma eventual parceria com a Meta para óculos inteligentes assinados pela Prada, a diretora criativa Miuccia Prada respondeu com cautela: “Talvez, quem sabe”.
O pano de fundo desses rumores é uma colaboração estabelecida entre a Meta e a Essilor Luxottica desde 2021, que resultou nos Ray‑Ban Meta. Esses modelos já venderam cerca de 2 milhões de pares desde 2023, com metas de alcançar 10 milhões até o final de 2026. Em junho de 2025 surgiram indicações de que essa aliança poderia se estender a marcas como Oakley e Prada, aproveitando a licença de eyewear da Essilor Luxottica com a Prada, renovada até 2030 (com opção até 2035).
Do ponto de vista de mercado, os números usados para justificar o otimismo não são triviais: as vendas globais de dispositivos da categoria variaram entre aproximadamente 2 e 6 milhões de unidades em 2024-2025 e as estimativas apontavam para 10-20 milhões em 2026, com cenários otimistas projetando picos entre 35 e 78 milhões anuais até 2030. As taxas compostas de crescimento (CAGR) médias estimadas estão na faixa de 47% a 64%, impulsionadas por líderes de mercado como Essilor Luxottica, Meta, Apple e entradas de players como Google e Xiaomi. As receitas de hardware associadas a esse segmento podem chegar a cerca de 14 bilhões de dólares até 2030.
Interpreto a aparição de Zuckerberg na Prada como um sinal de sintonia entre dois universos: o da alta moda, que fornece identidade de marca e distribuição premium, e o da arquitetura digital do consumo, onde o elemento sensorial — a camada de inteligência nos óculos — atua como infraestrutura. Se houver um acordo, não será apenas sobre design; será sobre inserir um novo componente no “sistema nervoso” das wearables: câmeras, sensores e algoritmos integrados ao fluxo de dados cotidiano.
Para a Europa, e especialmente para a Itália, essa convergência entre grife e tecnologia representa uma alteração nos alicerces do mercado de luxo e de consumo eletrônico. A cadeia de valor da eyewear pode se reorganizar: licenciamento, fabricação, experiência de usuário e coleta de dados operando como camadas interdependentes. Do ponto de vista regulatório e urbano, o impacto será mesclado — oportunidades de inovação e questões sobre privacidade e interoperabilidade de dados.
Na prática, a presença do cofundador da Meta na passarela não confirma um contrato iminente, mas funciona como amplificador; é um sinal que acelera expectativas entre investidores, fabricantes e consumidores. Nos próximos meses, atento às movimentações da licença da Essilor Luxottica com a Prada e a quaisquer anúncios oficiais entre as partes, poderemos ver se essa sinergia se traduz em produto nas prateleiras ou permanece no campo das intenções.






















