A busca online deixou de ser apenas uma estrada que leva o usuário a um site e virou uma resposta imediata que, muitas vezes, esgota a intenção de pesquisa ainda na página de resultados. Esse fenômeno, conhecido como zero-click search, já altera profundamente os alicerces digitais da presença online: dados da SparkToro indicam que 59,7% das pesquisas na União Europeia e 58,5% nos Estados Unidos terminam sem qualquer clique externo.
Com a introdução das AI Overviews, respostas geradas automaticamente surgem no topo da SERP (Search Engine Results Page), interceptando o usuário antes mesmo que ele alcance sites de editores ou profissionais. Não se trata apenas de uma queda nos cliques: é uma redefinição do valor econômico do conteúdo. Como reporta a Reuters, muitos editores já veem receitas diminuírem porque a AI atende imediatamente a intenção de pesquisa.
Para marcas e profissionais, isso cria um desafio em duas camadas. Ainda é necessário manter posições tradicionais de SEO para capturar tráfego direto; simultaneamente, é preciso adaptar-se a uma nova disciplina: a Generative Engine Optimization (GEO). A GEO é uma evolução da prática de otimização, onde modelos generativos priorizam sinais diferentes — autenticidade da identidade, contexto e autoridade mensurável — alinhados às diretrizes E-E-A-T (Experience, Expertise, Authoritativeness, Trustworthiness) do Google.
Denise Cumella, especialista em autoridade e fundadora da Libri d’Impresa, identifica um ponto de inflexão: com a expansão das buscas de zero-click, quem não consolidar o próprio brand pessoal corre o risco de se tornar invisível no horizonte digital. Essa necessidade de humanização é respaldada por dinâmicas sociais claras: o público polariza atenção em pessoas mais do que em organizações. A narrativa pessoal gera, em média, um engajamento cerca de 20 vezes superior ao conteúdo institucional, e os dados do LinkedIn Marketing Solutions mostram que publicações pessoais alcançam até 5,6 vezes mais visibilidade (+561%).
Hoje, a autoridade digital se apoia em três pilares: reputação off-line, resultados no Google Search e as respostas dos assistentes AI. O Edelman Trust Barometer 2024 aponta que 67% das pessoas consideram esses assistentes confiáveis. Em termos práticos, se o algoritmo, ao ser questionado sobre quem é o maior especialista de um tema, não encontra sinais claros, esse profissional simplesmente pode deixar de existir para o usuário final.
Há um paradoxo útil nessa transição: instrumentos antigos, como o livro, reencontram função estratégica. Na visão de Cumella, se a inteligência artificial é o motor que processa dados, o livro corporativo atua como “combustível nobre” que orienta essa máquina — uma ancoragem de credibilidade que sinaliza profundidade e consistência aos modelos que geram respostas.
Do ponto de vista técnico e estratégico — como analista que observa a infraestrutura digital — a recomendação é dupla e integrada: curar sinais estruturados (schema, identidade digital consolidada, referências citáveis) para continuar competitivo em SEO, e simultaneamente projetar conteúdos e perfis que alimentem os modelos generativos (GEO). Pense na sua presença online como um sistema nervoso: se os sinais elétricos (dados) são fracos ou incoerentes, a resposta da rede será imprecisa ou inexistente. A adaptação exige preparação metódica, mensuração e uma narrativa humana que funcione como fio condutor entre reputação e algoritmos.

















