Em Munique, durante a Security Conference, 15 líderes do setor tecnológico anunciaram a criação da Trusted Tech Alliance (TTA), uma coalizão internacional cujo objetivo é transformar a confiança em tecnologia em um padrão verificável e replicável. O agrupamento reúne empresas de África, Ásia, Europa e América do Norte, incluindo nomes como Microsoft, Google Cloud, AWS, SAP e Ericsson, além de fornecedores com atuação em defesa e telecomunicações, como Saab, Nokia e NTT.
O princípio central da iniciativa é simples, mas estrutural: a confiabilidade de um fornecedor não deve ser definida pela sua nacionalidade, e sim por sua aderência a padrões independentes e auditáveis. Essa abordagem trata a tecnologia como infraestrutura — tão essencial quanto uma rede de distribuição de energia ou o sistema nervoso das cidades — onde a transparência e a resiliência são requisitos de projeto, não opcionais.
Os membros da Trusted Tech Alliance firmaram compromisso público com cinco princípios orientadores que vão balizar a governança e a operação de serviços digitais:
- Governança Ética: transparência na gestão e conduta corporativa rigorosa.
- Desenvolvimento Seguro: avaliações independentes e clareza sobre processos de produção de software e hardware.
- Resiliência da Supply Chain: supervisão estrita da cadeia de suprimentos e garantias contratuais junto a subfornecedores.
- Ecosistemas Abertos: promoção de ambientes digitais interoperáveis e inclusivos.
- Estado de Direito: respeito às normas internacionais sobre proteção de dados e privacidade.
David Zapolsky, Chief Global Affairs & Legal Officer da Amazon, ressaltou que, em um contexto de rápidas mudanças tecnológicas, a colaboração entre parceiros industriais é crítica para reconstruir e consolidar a confiança dos clientes: “Em uma era de rápidos avanços, a colaboração entre parceiros industriais afins é essencial para promover a confiança dos clientes.”
Börje Ekholm, CEO da Ericsson, sintetizou a visão sistêmica que orienta a aliança: “Nenhuma empresa ou país pode, isoladamente, construir um stack digital seguro e confiável.” A declaração aponta para uma arquitetura distribuída de segurança — camadas de confiança e controles que se interligam para proteger dados e operações.
Com a aceleração da inteligência artificial, a necessidade de fundamentos confiáveis tornou-se ainda mais urgente. Josh Payne, CEO da Nscale, destacou o propósito prático da coalizão: permitir que clientes tenham “confiança absoluta sobre onde residem seus dados e como são protegidos”.
A TTA não pretende ser um clube fechado, mas uma comunidade em expansão que influenciará abordagens internacionais sobre soberania digital e competitividade global, atuando tanto em padrões técnicos quanto em práticas contratuais e auditorias independentes. Para quem acompanha a arquitetura digital europeia, trata-se de uma iniciativa que busca erguer alicerces institucionais e técnicos para um ecossistema tecnológico mais transparente e auditável — uma infraestrutura de confiança destinada a reduzir a assimetria de informações entre fornecedores e clientes.
Do ponto de vista prático, a coalizão deverá concentrar esforços em metodologias de certificação, protocolos de auditoria e cláusulas contratuais que reforcem a segurança da cadeia de suprimentos, a observância do estado de direito e a interoperabilidade entre plataformas. Em suma, a Trusted Tech Alliance propõe transformar princípios em padrões operacionais, um passo necessário para que a tecnologia deixe de ser um enigma geopolítico e passe a ser uma infraestrutura confiável ao serviço das sociedades.






















