Por Riccardo Neri — Uma nova peça emergiu dos alicerces do tempo: pesquisadores do Field Museum de Chicago anunciaram a descoberta de Tanyka amnicola, uma espécie de salamandra primitiva com a mandíbula contorcida que viveu há cerca de 275 milhões de anos no supercontinente Gondwana. O achado, publicado na revista Proceedings of the Royal Society B, foi feito em leitos de rio secos no Brasil e desafia parte do entendimento sobre a persistência de características consideradas arcaicas.
Os fósseis consistem principalmente em mandíbulas isoladas — algumas muito bem preservadas — e foram identificadas oito peças com a mesma curvatura peculiar. Essa replicação descartou a hipótese inicial de que se trataria de uma deformação patológica: “Todas apresentam essa torsão, incluídas as melhor preservadas”, afirma Jason Pardo, do Field Museum. Em linguagem direta de quem estuda arquitetura e sistemas, a mandíbula torcida é uma configuração estrutural estável no projeto morfológico do animal, não uma anomalia.
A interpretação morfológica sugere que Tanyka pertencia a uma linhagem antiga que, contrariamente ao esperado, sobreviveu por mais tempo do que a paleontologia previa. A equipe inclui paleontólogos internacionais e a reconstrução do aspecto do animal foi ilustrada por Vitor Silva, fornecendo um retrato provável: uma salamandra de aparência primitiva, talvez com o focinho alongado e dentes parcialmente inclinados para o lado.
Quanto ao tamanho, as estimativas apontam para indivíduos que poderiam alcançar até um metro de comprimento, o que os colocaria entre as formas maiores do grupo. O contexto sedimentar — camadas associadas a ambientes lacustres — indica que Tanyka amnicola provavelmente habitava margens de lagos ou corpos d’água interiores. Esse padrão ambiental reverbera como o sistema nervoso de uma cidade: as evidências tracejam onde o organismo circulava e interagia com o ecossistema.
Permanece, entretanto, uma lacuna importante no mosaico anatômico: as mandíbulas foram encontradas isoladas. “Até que não encontremos uma mandíbula articulada a um crânio ou a outros ossos definitivamente associados, não podemos afirmar qual resto ósseo nas proximidades pertence a Tanyka“, explica Ken Angielczyk, também do Field Museum. Em termos de investigação, trata-se de reconstruir a infraestrutura de um organismo a partir de fragmentos do seu sistema de suporte.
Do ponto de vista biológico e paleoecológico, a descoberta é significativa porque evidencia camadas de diversidade que persistiram no Gondwana e porque fornece pistas sobre hábitos alimentares e morfologias alternativas — possivelmente adaptadas a uma dieta especial ou a comportamentos específicos de captura e processamento de alimento. A presença de dentes inclinados lateralmente e a curvatura mandibular podem ter função funcional na alimentação, algo que agora será objeto de estudo biomecânico e comparativo.
Em síntese, Tanyka amnicola é um lembrete de que a história da vida se organiza em redes complexas e que traços morfológicos considerados “primitivos” podem, na verdade, ser camadas funcionais resilientes do sistema evolutivo. A expectativa é que novas escavações no Brasil tragam peças articuladas que conectem essas mandíbulas ao esqueleto, completando o painel e solidificando a colocação filogenética dessa salamandra curiosa.
Fonte: Field Museum / Proceedings of the Royal Society B (compilado a partir do anúncio do estudo)





















