Riccardo Neri — Um estudo recente conduzido pelo professor Kyle T. Ganson, da Factor-Inwentash Faculty of Social Work da Universidade de Toronto, publicado na revista Body Image, aponta que o maior tempo gasto nas redes sociais está associado a uma maior intenção de usar esteroides anabolizantes-androgênicos (AAS) entre jovens do sexo masculino que ainda não fizeram uso desses compostos. A pesquisa analisou dados de The Study of Boys and Men, envolvendo 1.515 participantes no Canadá e nos Estados Unidos.
Os participantes relataram um tempo médio de cerca de duas horas por dia em social media, valor semelhante ao tempo dedicado a assistir vídeos ou navegar na web. Entretanto, foi justamente o uso de redes sociais que se destacou como o fator mais fortemente associado à intenção de recorrer aos AAS. A navegação em sites tradicionais também apresentou correlação, porém em grau menor.
O estudo demonstra que não é apenas a quantidade de tempo online que importa, mas a natureza do conteúdo e o contexto da experiência digital. Indivíduos que reportaram maiores sintomas de dependência de redes sociais apresentaram intenções mais elevadas de usar esteroides. De maneira análoga, quem frequentemente visualizava imagens de corpos masculinos muito musculosos, magros ou atléticos — ou era exposto a conteúdos e anúncios que promovem suplementos e medicamentos para aumento de massa muscular — revelou intenções significativamente maiores. A exposição a promoções de produtos farmacológicos para aumento de massa muscular foi a associação mais marcante.
Além disso, participantes que frequentemente comparavam seus corpos com os de outros nas plataformas digitais relataram maior propensão ao uso de AAS. Esses padrões ressaltam como o algoritmo e as práticas de marketing digital funcionam como camadas de influência: não apenas eletricidade invisível que alimenta a rede, mas também sinais que moldam preferências e comportamentos antes mesmo da tomada de decisão.
Ganson observa que “devemos olhar além do tempo online para entender como os modelos de engajamento podem moldar comportamentos de saúde, incluindo a consideração do uso de esteroides”. Os AAS carregam riscos potenciais significativos à saúde física e mental, como complicações cardiovasculares, desequilíbrios hormonais, alterações de humor e possível dependência.
Do ponto de vista de políticas públicas e prevenção, os autores recomendam que intervenções não se limitem a contabilizar horas de tela. É necessária maior ênfase em alfabetização midiática, regulação das práticas de marketing digital relacionadas a suplementos e medicamentos, e monitoramento do conteúdo que jovens consomem — especialmente em espaços onde a normalização do comércio de produtos para ganho de massa é intensiva.
Em termos de arquitetura social, podemos ver as plataformas como parte do alicerce digital que influencia o desenvolvimento corporal e psicológico de uma geração. Assim como em uma cidade inteligente é preciso projetar circuitos que minimizem congestionamentos e riscos, também é preciso desenhar ecossistemas digitais que reduzam a exposição a mensagens que incentivam práticas perigosas de saúde.
Conclusão: a relação entre social media e intenção de uso de esteroides entre jovens é mediada pelo conteúdo, pelo contexto de engajamento e pelas estratégias comerciais. Intervenções eficazes exigirão intervenções técnicas, educacionais e regulatórias para tornar esse sistema nervoso digital menos permissivo a riscos evitáveis.






















