O relatório Reading Wrapped 2025 da Rakuten Kobo revela uma transformação estrutural nos hábitos de consumo cultural: a leitura deixou de ser apenas um ato estático e passou a operar como uma camada flexível no fluxo de dados do cotidiano. Em vez de um ritual isolado, a leitura se organiza em torno de janelas de tempo livre, em especial nos momentos de suspensão da rotina profissional.
O dado mais saliente é o crescimento dos audiolivros, que registraram um aumento de 37% em relação a 2024. Essa modalidade, livre das limitações visuais, funciona hoje como uma corrente paralela no sistema nervoso das cidades: integra narrativas a deslocamentos, tarefas domésticas e outras atividades cotidianas, consolidando a voz narradora como uma infraestrutura invisível de consumo cultural.
Ainda assim, o vínculo com a leitura impressa se mantém forte nos momentos de pausa concentrada. A domingo continua sendo o dia preferido dos italianos para o ócio literário, e o pico de fruição em 2025 ocorreu em 17 de agosto, quando os leitores nacionais alcançaram mais de 80 mil horas de leitura no dia — um indicador claro de que as férias de verão permanecem o principal período de imersão narrativa.
Nas preferências de gênero há uma busca evidente por envolvimento emocional e ambientes de leitura reconfortantes. Thriller, narrativa contemporânea e romances históricos seguem na liderança, mas os cozy mystery registraram uma alta excepcional de 62%: trata-se de um subgênero do policial que privilegia atmosferas menos sombrias e cenários acolhedores, funcionando como um refúgio cognitivo em tempos de sobrecarga informativa. Fantasia e ficção científica também avançaram, com crescimento de 13%.
Os mais vendidos no Kobo em 2025
- Una mente assassina – Angela Marsons
- La catastrofica visita allo zoo – Joël Dicker
- L’ultimo segreto – Dan Brown
- Miss Bee e il principe d’inverno – Alessia Gazzola
- Tatà – Valérie Perrin
- Delitto di benvenuto – Cristina Cassar Scalia
- La levatrice – Bibbiana Cau
- Tutta la vita che resta – Roberta Recchia
- Come l’arancio amaro – Milena Palminteri
- L’anniversario – Andrea Bajani
O relatório também mapeia tendências editoriais emergentes que nascem no tecido digital e ganham solidez no mercado físico. As fanfiction originadas em comunidades online estão sendo cada vez mais adquiridas por grandes editoras, um sinal de que a cultura do fandom atua como um viveiro de conteúdo comercializável. Do mesmo modo, prevê-se o crescimento do hockey romance, um híbrido de paixão romântica e competição esportiva que já encontra audiência em produções televisivas internacionais.
Para 2026, a previsibilidade é um retorno aos clássicos impulsionado por adaptações cinematográficas de obras como Wuthering Heights e Pride and Prejudice — um efeito de recirculação onde a indústria audiovisual reconfigura os alicerces da demanda editorial.
Do ponto de vista dos sistemas, o que observamos é uma recomposição da arquitetura de consumo: camadas de inteligência (voz, texto, imagem) se reorganizam para entregar conteúdo ao usuário onde e quando há janela de atenção. Para profissionais de cidades digitais e infraestrutura cultural, isso significa planejar canais de distribuição que reconheçam o tempo como recurso escasso e privilegiar formatos que integrem leitura ao fluxo cotidiano.
Em síntese, o Reading Wrapped 2025 confirma que a leitura se tornou uma infraestrutura resiliente e adaptativa — parte do alicerce digital que mantém viva a experiência cultural em ambientes urbanos cada vez mais densos e interconectados.



















