Um pequeno osso carpale encontrado durante escavações em Córdoba pode representar a primeira evidência material direta do uso de elefantes pelas tropas cartagineses no teatro europeu durante a Segunda Guerra Púnica. A descoberta, publicada no Journal of Archaeological Science: Reports, foi liderada por Rafael M. Martínez Sánchez (Universidad de Córdoba) em colaboração com investigadores das universidades de Córdoba e Autónoma de Madrid.
O fragmento ósseo foi recuperado no sítio conhecido como Colina de los Quemados, identificado como um oppidum ibérico que precedeu a Córdoba romana. O material provém de um nível estratigráfico associado a um contexto militar datável entre os séculos IV e III a.C., cronologia compatível com a presença das forças púnicas na Península Ibérica.
O contexto arqueológico é significativo: estruturas de produção, colapsos edilícios e um conjunto de materiais bélicos — incluindo projéteis líticos de maquinaria de cerco e achados numismáticos — sugerem ligações com os eventos conflituosos da Segunda Guerra Púnica (218–201 a.C.). A datação por radiocarbono reforça a colocação temporal do osso no intervalo mencionado, tornando plausível a sua associação com operações militares cartaginesas em Hispânia.
Os autores enfatizam um ponto lógico e funcional: é altamente improvável que partes esqueléticas de elefante tivessem sido transportadas até o sítio como objetos simbólicos ou utilitários. O osso carpale, por sua natureza, não tem valor manufatureiro evidente, o que torna mais provável a interpretação de que ele seja remanescente de um indivíduo que esteve fisicamente presente no local. Assim, embora não ligue diretamente o achado à célebre travessia dos Alpes por Annibale, o vestígio fornece uma camada material que aproxima a narrativa histórica da evidência arqueológica.
Do ponto de vista logístico e sistêmico, a presença de elefantes no teatro ibérico implica uma arquitetura operacional complexa: manutenção de corpos vivos de grande porte, rotas de abastecimento e uma cadeia de comando capaz de integrar essas unidades nas campanhas — elementos que podem ser lidos como as “infraestruturas” físicas e organizacionais de um exército antigo. Em termos analíticos, o achado funciona como um ponto de dados que reconstrói o fluxo e o suporte que tornavam possível a projeção de força cartaginesa na Península.
Para a arqueozoologia e para os estudos sobre as guerras púnicas, a descoberta abre um novo capítulo: reduz o hiato entre fontes literárias e iconográficas e uma prova osteológica concreta. A detecção de um osso de elefante em contexto militar reforça a hipótese da utilização operacional desses animais em Hispânia e permite que investigadores formulem modelos mais robustos sobre logística, mobilidade e impacto cultural das tropas púnicas.
Em resumo, o achado em Colina de los Quemados atua como um elo tangível entre registros históricos e o registro material, entregando uma evidência que, embora discreta, altera a leitura das “camadas” de presença cartaginesa na Península Ibérica. Como toda boa infraestrutura, a história se revela pelos seus componentes: este osso é um desses elementos que ajudam a mapear o sistema nervoso de uma guerra antiga.
Referência: Rafael M. Martínez Sánchez et al., Journal of Archaeological Science: Reports.






















