Por que algumas pessoas persistem em decisões erradas mesmo quando há alternativas claramente melhores? Uma investigação do Centro de Neurociências Cognitivas da Universidade de Bolonha, no Campus de Cesena, oferece pistas importantes: o nosso cérebro pode permanecer escravizado a sinais ambientais que, apesar de terem perdido valor informativo, continuam a orientar o comportamento.
O estudo, publicado em The Journal of Neuroscience e assinado por pesquisadores incluindo Sara Garofalo e Giuseppe di Pellegrino, investigou como estímulos do ambiente — imagens, sons ou objetos — atuam como antecipadores de recompensa e o que ocorre quando deixam de ser confiáveis. Os autores associam esse fenômeno a uma vulnerabilidade para comportamentos disfuncionais, como dependências e compulsões, porque sinais previamente positivos podem persistir como gatilhos mesmo diante de consequências negativas.
Conceitualmente, os pesquisadores destacam dois sistemas de aprendizado que interagem durante a tomada de decisão. Um deles baseia-se na experiência direta: aprendemos quais ações nos trazem resultado favorável e ajustamos o comportamento. O outro se apoia em associações entre estímulos ambientais e recompensas — quando um sinal aparece, ele funciona como um aviso antecipatório que nos motiva a agir. Normalmente, esses sistemas operam de forma coordenada; o problema surge quando os sinais ambientais continuam a capturar atenção e motivação mesmo depois de perderem sua utilidade.
Para testar essa dinâmica, a equipe conduziu um experimento com sessenta participantes usando uma slot machine virtual em três fases. Na primeira fase, os voluntários aprenderam a associar determinadas imagens a ganhos da máquina. Na segunda, descobriram que acionar uma alavanca específica aumentava a probabilidade de vitória — aqui o aprendizado instrumental (ação→resultado) era claro. Na terceira fase, a mesma alavanca continuava a ser aquela com maiores chances de ganho, mas as imagens associadas na fase 1 podiam reaparecer de forma irrelevante para o resultado. Ou seja: as imagens deixaram de ser informativas sobre a vitória.
Os resultados evidenciaram dois perfis decisoriais distintos. De um lado, os chamados goal-trackers (orientados ao objetivo), que se baseiam mais na relação entre ação e consequência e ajustam o comportamento conforme a contingência atual. Do outro, os sign-trackers (orientados ao sinal), que continuam a reagir fortemente aos estímulos ambientais — às imagens — mesmo quando estes não alteram as probabilidades de ganho. Em termos práticos, os sign-trackers mantêm escolhas subótimas guiadas por vestígios do passado.
Do ponto de vista da arquitetura social e clínica, essa distinção é relevante. Assim como a infraestrutura urbana precisa de sinalização atualizada para evitar congestionamentos e acidentes, o sistema nervoso das cidades do nosso comportamento — o fluxo de dados entre estímulos, valores e ações — depende de sinais que reflitam corretamente as condições presentes. Quando os sinais ficam defasados, a eficiência do sistema cai e surgem comportamentos compulsivos.
As implicações práticas apontam para intervenções que reajam ao ambiente: reduzir ou reconfigurar sinais que atuam como gatilhos, treinar aprendizagem instrumental mais robusta ou usar técnicas de exposição que desensem o poder motivacional desses estímulos. Em saúde pública e políticas de prevenção, essa abordagem equivale a reformular os «alicerces digitais» do comportamento coletivo — reduzir pistas ambientais problemáticas pode diminuir a suscetibilidade a hábitos danosos.
Em síntese, o estudo da Universidade de Bolonha reforça que nem toda escolha «errada» revela falta de racionalidade explícita; muitas vezes é consequência de uma arquitetura de sinais que continua a alimentar decisões obsoletas. Compreender essa dinâmica é essencial para desenhar intervenções que realinhem o fluxo de dados comportamental ao contexto real, promovendo decisões mais adaptativas e menos sujeitas a compulsões e dependências.
Riccardo Neri — Analista em inovação aplicada e infraestrutura digital na La Via Italia. Observador das camadas invisíveis que regulam escolhas individuais e coletivas na Europa.






















