Por Riccardo Neri — Depois de anos em que o mercado parecia estacionado em aperfeiçoamentos incrementais, uma mudança estrutural emerge: a inteligência artificial reconstrói o papel do smartphone do chip ao serviço, reordenando camadas de valor que antes estavam ancoradas no hardware.
“Antes da IA, muitos viam o mercado como um pouco monótono”, admite Kevin Cho, CEO da Oppo Espanha. “Hoje a tecnologia pode reconstruir completamente a experiência do telefone, desde os serviços até o seu ecossistema. É um renascimento para todo o setor”. A declaração sintetiza uma transição: o dispositivo deixa de ser apenas um objeto físico para se tornar um nó de um alicerce digital maior.
Jessica Chuang, responsável de marketing da Oppo, reforça a mudança de paradigma. “Durante muito tempo nos concentramos no hardware: ecrãs, baterias, câmaras. Mas agora o software é a alma do telefone. A inteligência artificial dá forma a uma nova ideia de simplicidade: torna a vida mais fluida, mais pessoal, mais nossa”. Em termos de arquitetura de produto, isso significa deslocar o centro de gravidade para as camadas de software e serviços, onde o fluxo de dados e os algoritmos atuam como infraestrutura invisível.
Um exemplo prático citado por Chuang é a funcionalidade AI MySpace, que transforma o telefone num assistente ativo: “Posso pedir ‘mostre-me o restaurante que salvei em Barcelona’ e ele encontra para mim”. É um movimento que aproxima o dispositivo do papel de hub pessoal de inteligência — combinando processamento local e capacidades na nuvem para respostas mais rápidas e contextualizadas.
A Oppo prevê levar funcionalidades de IA a mais de 100 milhões de utilizadores até o final do ano, não só nos modelos de topo. “Queremos democratizar a inteligência artificial”, afirma Cho. “As funções de IA não devem ser um luxo, mas parte da experiência de todos”. Esse objetivo implica desafios de escala: como manter latência, privacidade e custo quando a base de utilizadores cresce em dezenas de milhões.
Elvis Zhou, CEO da Oppo Europa, descreve o cenário como “uma evolução natural para telefones mais conscientes”. Mas acrescenta uma ressalva institucional: “Temos projetos específicos para proteger os dados dos utilizadores e reforçar a privacidade. A IA só melhora a vida se for confiável e segura”. A preocupação com a privacidade é central; sem garantias, a aceitação social desses novos serviços fica comprometida.
Na fotografia, a IA mostra tanto potencial quanto dilemas. “A IA pode corrigir, melhorar, até imaginar”, observa Chuang, “mas a maioria das pessoas a usa para capturar a verdade, não para falsificá‑la. Funções como AI Eraser removem elementos indesejados, não criam realidades alternativas”. Para muitos, ferramentas como AI Studio servem para restaurar e colorir fotos antigas — um restauro que preserva a essência da memória em vez de substituir a realidade.
O impacto vai além do aparelho: trata-se de expandir o ecossistema, integrar serviços e reconfigurar as cadeias de valor da indústria. Do ponto de vista da infraestrutura digital, a convergência entre IA local e em nuvem transforma o smartphone no coração das conexões inteligentes, coordenando comunicação, produtividade e criatividade — como um sistema nervoso que redistribui sinais para diferentes órgãos urbanos.
O desafio técnico e social agora é equilibrar inovação com responsabilidade: desempenho, segurança, transparência e acessibilidade. A adoção em massa depende não só da qualidade algorítmica, mas de como esses sistemas se encaixam nos alicerces legais e culturais da Europa. Em suma, a revolução do smartphone é menos um espetáculo de novas formas e mais uma reforma da infraestrutura digital que sustenta o quotidiano.






















