Por Riccardo Neri — A fotografia do cuidado contra a obesidade na Itália revela uma rede desigual: dos cerca de 160 centros especializados em atividade no país, mais da metade está localizada no Norte. Essa distribuição assimétrica cria um verdadeiro nó na infraestrutura de saúde, onde as regiões com maiores necessidades constituem os pontos mais frágeis do sistema.
Mapa das desigualdades
Segundo levantamento da Società Italiana dell’Obesità (Sio), 52% dos centros para tratamento da obesidade encontram-se no Norte, 18% no Centro e 30% no Sul e nas Ilhas. No Sul, a oferta é concentrada principalmente em três polos: Sicília, Campânia e Puglia, enquanto regiões inteiras como Calábria e Molise permanecem praticamente em ‘zona de sombra’ no mapa do atendimento.
Esse desequilíbrio não é apenas geográfico: ele se traduz em diferenças no acesso às novas terapias farmacológicas e na implementação de instrumentos organizativos, como os PDTA (Percorsi diagnostico-terapeutici-assistenziali).
Impacto nos tratamentos e no acesso a medicamentos
Os medicamentos modernos contra a obesidade — os agonistas do recetor GLP-1 — permanecem, na ausência de diagnóstico de diabetes, a cargo dos pacientes. Com custo aproximado de 300 euros por mês, seu acesso tende a favorecer estratos de maior rendimento, aprofundando a desigualdade socioeconômica já presente no território.
Apenas seis regiões aprovaram formalmente PDTA para obesidade — três no Norte, uma no Centro e duas no Sul — nomeadamente: Veneto, Piemonte, Emilia-Romagna, Lazio, Campânia e Sicília. Esses percursos garantem uniformidade de cuidados dentro de cada região; a sua escassez amplia a variabilidade na qualidade assistencial entre uma região e outra.
Dados epidemiológicos e custo social
Os números são claros: quase 6 milhões de cidadãos italianos vivem com obesidade — cerca de 11,8% da população adulta — e outro ~34% está em sobrepeso. O Italian Barometer Obesity Report 2024/2025 (com base em Istat e ISS) evidencia variações territoriais significativas: Molise (14,1%), Campânia (12,9%) e Abruzzo (12,7%) figuram entre as taxas mais altas de obesidade. Considerando sobrepeso e obesidade, no Sul e nas Ilhas quase uma pessoa em cada dois está acima do peso ideal (aprox. 49%), contra cerca de 42% no Norte.
O contraste é ainda mais acentuado entre as crianças nas regiões meridionais, onde o sobrepeso infantil atinge patamares preocupantes, configurando um problema de saúde pública que atravessa gerações.
Propostas e agenda política
À frente da Sio, o professor Silvio Buscemi (Universidade de Palermo) sintetiza: “Os números falam claro: a rede de cerca de 160 centros italianos é concentrada no Norte, área onde paradoxalmente os índices de obesidade são mais baixos, ainda que em crescimento”. Na perspectiva de Buscemi, o Sul vive uma emergência social alimentada por determinantes socioeconômicos e pela falta crônica de estruturas.
Em razão da Giornata mondiale contro l’obesità, que se celebra em 4 de março, a Sio levará ao Senado o Manifesto di Erice, uma proposta que pretende desenhar uma roadmap de ações coordenadas entre instituições, sociedades científicas e pacientes, visando fortalecer a malha assistencial e reduzir as assimetrias regionais.
Reflexão final
O quadro desenha não só uma falha distributiva de serviços de saúde, mas também um problema estrutural: os alicerces do sistema de cuidado para a obesidade não acompanham o fluxo de necessidades sociais. Assim como numa cidade bem desenhada as artérias de transporte conectam os bairros às funções essenciais, o país precisa de uma arquitetura mais equitativa de centros, PDTA e acesso a terapias para não deixar regiões inteiras desconectadas do sistema de cuidado.
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