Por Riccardo Neri, Espresso Italia — Um trabalho recente da Universidade de Pádua e do Instituto Nacional de Oceanografia e de Geofísica Experimental (OGS) coloca sob novo foco uma ameaça biológica que tem passado em parte despercebida: a Mnemiopsis leidyi, conhecida como noz-do-mar. Enquanto a atenção pública vinha sendo absorvida pelo impacto do caranguejo-azul no litoral, esse ctenóforo invasor — classificado entre as 100 espécies invasoras mais danosas no planeta — consolida-se no Mar Adriático há quase uma década e se mostra especialmente perigoso para ambientes de laguna e para a atividade pesqueira.
No artigo publicado na revista Estuarine, Coastal and Shelf Science, a equipe liderada por pesquisadores da Universidade de Pádua e do OGS apresenta a primeira investigação integrada, de campo e laboratório, sobre a nicho ecológico da Mnemiopsis leidyi na Laguna de Veneza. O estudo combina dois anos de monitoramento espacial com experimentos controlados para definir os limiares ambientais que permitem a sobrevivência e a proliferação da espécie.
Segundo Filippo Piccardi, autor principal e pesquisador da Universidade de Pádua, as informações sobre a dinâmica desse ctenóforo em lagoas mediterrâneas — ecossistemas com alta variabilidade espacial e sazonal — eram insuficientes. “O nosso estudo constitui a primeira investigação integrada no campo e em laboratório do nicho ecológico de Mnemiopsis leidyi na Lagune di Venezia”, explica Piccardi. A equipe documentou um padrão sazonal claro: episódios de bloom (reprodução massiva) no final da primavera e entre o final do verão e o início do outono, momentos associados a temperaturas mais amenas e condições ótimas de salinidade.
Os resultados mostram correlação positiva da abundância da espécie com a temperatura e a salinidade da água. Nos experimentos em laboratório, combinados com observações in situ, a Mnemiopsis leidyi exibiu capacidade de sobreviver em ampla faixa térmica (10–32 °C) e de salinidade (10–34). Contudo, extremos desses intervalos — como temperaturas muito altas (32 °C) ou salinidade muito baixa (10) — reduzem significativamente a sobrevivência, indicando limites que modulam sua ocorrência.
Valentina Tirelli, coautora e pesquisadora do OGS, ressalta o papel das mudanças climáticas: “Ao integrar observações de campo com tolerâncias experimentais, nosso estudo sugere que as alterações climáticas em curso podem criar condições mais favoráveis a esse ctenóforo, ampliando sua presença em agregados densos e elevando o risco de impactos severos”. Esses “impacts” incluem competição com plâncton local, redução de recursos para larvas de peixes e, por consequência, perdas para pescadores e para a resiliência do sistema lagunar.
Do ponto de vista de infraestrutura ecológica, a proliferação da noz-do-mar age como uma mudança na topologia do sistema nervoso das lagoas: altera fluxos de energia e matéria, reduzindo a conectividade entre níveis tróficos e pressionando serviços ecossistêmicos essenciais à economia local. Para além do efeito biológico, há implicações operacionais para as comunidades que dependem da pesca artesanal e para o manejo costeiro da cidade de Veneza, cujo funcionamento já é sensível a alterações ambientais.
Em termos práticos, o estudo recomenda monitoramento contínuo e abordagens interdisciplinares que unam vigilância de campo, experimentos ecofisiológicos e modelagem das condições futuras sob cenários climáticos. Essas camadas de informação formam o alicerce necessário para políticas de mitigação e estratégias adaptativas, tal como se faz para qualquer infraestrutura crítica: detectar pontos fracos, projetar redundâncias e responder de forma coordenada.
Conclui-se que a Mnemiopsis leidyi representa um risco real e mensurável à Laguna de Veneza. O desafio agora é traduzir evidência científica em ações de gestão que preservem tanto a biodiversidade quanto os meios de subsistência locais, integrando ciência, políticas públicas e práticas de pesca sustentáveis.






















