As dúvidas clássicas da adolescência — ‘ele/ela me ama?’, ‘por que não responde?’ — ganharam um novo destino: não mais apenas os colegas de classe, mas também o aparelho que carregamos no bolso. Segundo a edição 2026 do observatório indifesa, realizado por Terre des Hommes em parceria com a comunidade Scomodo, cerca de metade dos jovens italianos já pediu ajuda à inteligência artificial para lidar com problemas afetivos, de saúde ou de ordem psicológica.
O relatório, divulgado próximo à Giornata contro bullismo e cyberbullismo e ao Safer Internet Day, ouviu mais de 2.000 pessoas com menos de 26 anos. Entre os achados mais relevantes: 24% usaram a IA para resolver um problema sentimental, 22% para questões de saúde e 21% para obter suporte psicológico. Esses números ilustram como o acesso a respostas imediatas e aparentemente neutras está se tornando parte do repertório emocional dos jovens.
Do ponto de vista de infraestrutura social, isso configura uma extensão do ‘sistema nervoso’ das comunidades juvenis: algoritmos que funcionam como conselheiros instantâneos, oferecendo roteiros e interpretações que antes transitavam entre amigos, família ou profissionais. A escolha desse caminho revela tanto uma busca por privacidade quanto uma necessidade de orientação acessível, mas também levanta questões sobre limites, qualidade das respostas e dependência tecnológica.
Outro aspecto investigado foi o comportamento em chats coletivas sobre a aparência de terceiros: cerca de um terço dos entrevistados presenciou conversas onde se comentava o aspecto físico de outras pessoas. Dentre aqueles que vivenciaram essas situações, 40% disseram ter procurado alguém de confiança para falar sobre o episódio; 36% optaram por silenciar as notificações; 31% abandonaram a conversa. A ação mais ativa, reportar ou pedir a remoção do conteúdo, foi adotada por 30%.
As reações revelam diferenças de gênero: jovens do sexo feminino tendem mais à partilha e intervenção (falar com alguém, sinalizar e pedir remoção), enquanto jovens do sexo masculino apresentam maior inclinação ao desengajamento e à normalização (silenciar, rir ou minimizar).
A questão da privacidade pessoal também aparece com destaque: embora a maioria considere inaceitável que outra pessoa controle seu telefone, o relatório mostra que 69% dos entrevistados compartilham senhas com familiares, amigos ou parceiros — predominantemente por motivos de segurança. Apenas 2% interpretam esse compartilhamento como demonstração de respeito ou apreço. Mulheres e faixas etárias mais elevadas tendem a considerar o controle do telefone mais inaceitável.
Do ponto de vista de políticas públicas e desenho de produtos digitais, esses dados sugerem duas prioridades: primeiro, reforçar a qualidade e a ética das camadas de IA que atuam como pontos de apoio emocional, garantindo transparência e rotas claras para encaminhamento profissional; segundo, educar para práticas de privacidade e segurança digital que respeitem os limites individuais sem naturalizar comportamentos de vigilância entre jovens.
Em suma, a presença crescente de algoritmos na vida afetiva dos adolescentes é um sintoma da integração entre dispositivos, serviços e redes sociais — os alicerces digitais que moldam comportamentos. Compreender esse fluxo de dados e seus impactos é condição necessária para desenhar intervenções eficazes: tanto políticas de proteção quanto ferramentas que traduzam empatia genuína em protocolos técnicos responsáveis.






















