Por Riccardo Neri, Espresso Italia — A administração do prefeito Zohran Mamdani iniciou uma revisão orçamentária profunda para enfrentar um déficit de 12 bilhões de dólares e identificou, entre os primeiros alvos de corte, o chatbot da iniciativa MyCity. O movimento expressa uma abordagem pragmática: tratar a tecnologia como infraestrutura pública, sujeita a auditoria de custo-benefício, e não como um adereço político.
O agente digital, lançado na gestão anterior com o objetivo de facilitar a vida de empresários perante as complexas normas municipais, foi desenvolvido na nuvem da Microsoft e custou cerca de 600.000 dólares. No entanto, múltiplas denúncias apontaram respostas incorretas e juridicamente arriscadas fornecidas pelo sistema. Em alguns casos, o chatbot sugeriu práticas que contrariam a legislação trabalhista, incluindo orientações sobre retenção de parte das gorjetas, o que transformou o projeto em um problema operacional e de responsabilidade legal.
Do ponto de vista de governança, a decisão de encerrar o serviço reflete uma leitura sistêmica: não é apenas aparar gastos, é limpar os alicerces digitais para garantir que o sistema nervoso das cidades — o fluxo de dados e serviços que conecta cidadãos, empresas e administração — opere com segurança e transparência. Mamdani criticou a iniciativa como exemplo de gestão onde custos reais e dependências externas ficaram “sob o capô” sem fiscalização adequada.
Além da desativação do software, o plano de recuperação fiscal da prefeitura prevê medidas mais amplas: aumento da carga sobre grandes patrimônios e corporações e uma auditoria item a item das despesas municipais. Em linguagem de infraestrutura, trata-se de inspeção estrutural: cada linha do orçamento será examinada como se fosse um componente da rede elétrica ou de abastecimento, para priorizar eficiência e resiliência financeira.
Do ponto de vista técnico, o caso MyCity ilustra riscos recorrentes quando projetos digitais são terceirizados e lançados sem suficiente validação de qualidade e conformidade jurídica. Ferramentas de inteligência artificial podem automatizar processos e reduzir atrito, mas sem dados de treino apropriados, supervisão humana e mecanismos de responsabilização, transformam-se em pontos de falha com custo político e econômico.
Para a cidade de Nova York, a retirada do chatbot é ao mesmo tempo um gesto de economia imediata e um chamado à maturidade digital: investir em camadas de inteligência que entreguem confiança, auditabilidade e interoperabilidade com o restante da arquitetura pública. Em última análise, a lição é clara para outras administrações europeias e italianas que observam a experiência: a digitalização deve reforçar, não comprometer, os alicerces das políticas públicas.






















