Por Riccardo Neri — Uma investigação dendrocronológica internacional coordenada pelo CNR‑IBE confirma que a qualidade sonora dos violinos de Antonio Stradivari não decorre apenas do talento do luthier, mas também da seleção precisa do madeiro. A pesquisa analisou 314 séries de anéis de crescimento provenientes de 284 instrumentos autênticos e demonstra que, especialmente durante a sua fase de maior maturidade técnica — a chamada “golden age” —, Stradivari privilegiou abetos de alta montanha colhidos na Val di Fiemme, no Trentino oriental.
Do ponto de vista técnico, os resultados mostram um padrão recorrente: muitas tábuas apresentam sequências de anéis tão semelhantes que é possível inferir uso do mesmo tronco em instrumentos fabricados anos separados. Esse comportamento reflete uma política deliberada de seleção do material, orientada à obtenção de tábuas harmônicas com propriedades mecânicas e acústicas muito homogêneas.
As análises identificaram como especialmente adequados os exemplares de abete vermelho (Picea abies) que cresceram em alta altitude e exibem anéis finos e regulares. Essas características são compatíveis com um período climático de resfriamento conhecido como Minímo de Maunder (c. 1645–1715), quando a atividade solar reduzida levou a estações vegetativas mais curtas e crescimento anual limitado. Em síntese: o clima e a altitude atuaram como condicionantes físicos que produziram uma madeira com propriedades acústicas singulares — uma espécie de infraestrutura natural para o instrumento.
O estudo publicado na revista Dendrochronologia é a maior investigação dendrocronológica já feita sobre o corpus de Stradivari. Segundo Mauro Bernabei, coordenador da pesquisa no CNR‑IBE, a evolução das fases produtivas do luthier acompanha a mudança das fontes de aprovisionamento do madeiro. Enquanto instrumentos mais antigos apresentam proveniências heterogêneas, a virada no início do século XVIII coincide temporalmente com a utilização consistente do abeto da Val di Fiemme, que coincide com os instrumentos da sua “idade de ouro”.
Do ponto de vista metodológico, o acoplamento entre dendrocronologia, conhecimento histórico e análise material permitiu refinar a compreensão sobre como Stradivari escolhia as tábuas. Encontramos aqui um exemplo claro de integração entre recursos naturais e técnica humana: a floresta alpina atuou como um repositório de matéria-prima com características previsíveis, e o luthier funcionou como um engenheiro que soube explorar essas propriedades.
Há implicações práticas e simbólicas. Practicamente, a identificação das fontes de madeira ajuda a preservar o legado construtivo e orienta critérios de restauração e autenticação. Em termos simbólicos, o estudo reafirma que a excelência dos instrumentos é produto de uma cadeia de fatores — clima, ecossistema e escolhas técnicas — formando os alicerces invisíveis do som que hoje consideramos insuperável.
Em última instância, a pesquisa é também um tributo: ao saber acumulado de liutaria em Cremona e à dedicação dos cientistas que combinam história, ecologia e técnica para mapear o que, por muito tempo, foi apenas uma impressão sonora. Ela nos lembra que, por trás do timbre mítico de um Stradivari, há um sistema — do bosque às oficinas — cujo fluxo de dados e materiais sustentou uma tradição musical única.






















