Por Riccardo Neri — A colaboração internacional por trás do levantamento LoTSS-DR3, com participação significativa do INAF, divulgou um avanço substancial na cartografia do céu em baixas frequências: o conjunto de dados identifica 13,7 milhões de fontes de rádio. Obtido com o radiotelescópio europeu LOFAR (Low Frequency Array), o novo catálogo oferece a imagem mais detalhada até hoje do céu em ondas de cerca de dois metros e permite o censo mais completo de buracos negros supermassivos em fase de acreção.
O salto em relação à segunda liberação de dados (DR2), de 2022, é evidente: enquanto a DR2 listou quase 4,4 milhões de fontes cobrindo pouco mais de um quarto do hemisfério norte, a LoTSS-DR3 triplica o número de detecções e estende a cobertura para aproximadamente 88% do hemisfério norte — cerca de 19 mil graus quadrados. Novas regiões, antes não mapeadas, como porções do plano galáctico, foram incorporadas, ampliando tanto a profundidade quanto a diversidade científica do levantamento.
O instrumento é resultado de um projeto iniciado pela Astron e atualmente operado como European Research Infrastructure Consortium (ERIC). A rede é formada por 52 estações distribuídas pela Europa, com mais de 25 mil antenas interconectadas via fibras ópticas e operando como um único interferômetro. As observações cobriram o intervalo de frequências de 120-168 MHz (comprimentos de onda de cerca de dois metros) e atingiram resolução angular próxima de 6 segundos de arco, permitindo estudar estruturas com detalhe fino no céu radio.
Por trás do catálogo está uma infraestrutura de dados comparável a um grande canteiro urbano digital: mais de 13 mil horas de observação geraram um volume bruto na ordem de 18,6 petabyte, e o processamento acumulou mais de 20 milhões de horas de cálculo distribuído ao longo de uma década. Esse esforço exigiu o desenvolvimento de algoritmos altamente automatizados e pipelines de calibração novos, além da orquestração de sistemas de alto desempenho e monitoramento contínuo — um verdadeiro alicerce digital que sustenta a nova fase da radioastronomia de baixas frequências.
Do ponto de vista científico, o catálogo LoTSS-DR3 amplia nossa capacidade de identificar núcleos ativos em galáxias distantes, traçar morfologias de jatos e estudar a evolução de buracos negros supermassivos em crescimento. Para a Europa, o projeto exemplifica como a integração de redes físicas (antenas e fibras) e camadas de inteligência (algoritmos e computação distribuída) gera novas janelas observacionais que antes eram inacessíveis.
Os resultados estão em processo de publicação na revista Astronomy & Astrophysics. Além do ganho científico imediato, a DR3 consolida técnicas de calibração e análise que serão fundamentais para as próximas gerações de levantamentos e para a interoperabilidade dos grandes observatórios europeus. Em termos práticos, tratar e extrair ciência de dezenas de petabytes é hoje tão crítico quanto projetar as antenas: é o fluxo de dados que transforma infraestrutura em descoberta.
Em resumo, a LoTSS-DR3 não é apenas um incremento numérico; é um refinamento da arquitetura observacional: maior cobertura, maior sensibilidade, novos territórios do céu mapeados e um catálogo que servirá de base para estudos sobre a população de buracos negros, formação de galáxias e processos de emissão em baixas frequências. Para a comunidade europeia e italiana — e para quem acompanha a infraestrutura científica —, trata-se de um marco operacional e analítico.






















