Da desinformação digital à inteligência artificial, passando pela crise das instituições democráticas e o papel da formação cívica: nesta entrevista o professor Mario Caligiuri explica por que hoje a intelligence deixa de ser um domínio exclusivo dos Estados e se torna uma ferramenta necessária para cidadãos, empresas e instituições democráticas.
1. A intelligence como método de decisão
Caligiuri afirma que a intelligence não é apenas atividade de serviços de Estado, mas um «método» aplicado por qualquer pessoa ao tomar decisões. Segundo o professor, “a Intelligence é o método que cada um de nós utiliza para assumir decisões. Para qualquer escolha, recolhemos, analisamos e usamos informações”.
Na prática, explica ele, essa lógica vale tanto para indivíduos quanto para empresas e governos: os cidadãos precisam de ferramentas para se protegerem da emergência educativa e democrática representada pela sociedade da desinformação, onde a realidade e a percepção pública muitas vezes caminham em sentidos opostos. As empresas necessitam de informações estruturadas para operar em um contexto de globalização que aprofunda desigualdades; os Estados, por sua vez, dependem da intelligence para garantir segurança e bem-estar.
2. Defender a democracia a partir da informação
Para Caligiuri, a capacidade de recolher informações sobre segurança nacional de forma preventiva e tempestiva é essencial para orientar decisores públicos e assegurar o funcionamento correto das instituições democráticas. Ele lembra que, desde os tempos mais remotos, avaliar corretamente as informações fez a diferença entre a vida e a morte — e que, hoje, essa necessidade persiste.
Partindo da reflexão aristotélica de que todo regime político tende a degenerar, Caligiuri chama atenção para a transformação da democracia em demagogia ou populismo. Entre as vulnerabilidades apontadas, está a insuficiência de mecanismos eficazes para formação, seleção e controle das elites políticas. Assim, ampliar a cultura da intelligence é, para ele, um exercício indispensável num mundo em metamorfose, marcado por conflitos e por mudanças duradouras nas relações internacionais.
3. Educação, pensamento crítico e formação
Uma das propostas centrais do professor é que a intelligence seja tratada também como disciplina de estudo, tanto nas escolas quanto nas universidades. A educação, nessa visão, deve desenvolver pensamento crítico, capacidade de análise e literacia informacional, instrumentos fundamentais para que cidadãos e profissionais saibam distinguir fatos de manipulação.
Caligiuri defende que investir em formação é investir na resiliência democrática. Ao fortalecer as competências civis e analíticas dos indivíduos, reduz-se a vulnerabilidade da sociedade aos fluxos massivos de desinformação e às narrativas manipuladas que corroem a confiança nas instituições.
4. Implicações para empresas e instituições
Além do papel público, o estudo e a aplicação da intelligence são, na visão do entrevistado, estratégicos para o setor privado: empresas precisam de informações confiáveis para gerir riscos, adaptar-se a mudanças geopolíticas e lidar com cadeias de suprimentos complexas. Assim, a incorporação de metodologias de análise e verificação transforma-se em vantagem competitiva.
5. Conclusão: uma necessidade social
Concluindo, Caligiuri reafirma que a intelligence hoje é uma “necessidade social” — um recurso coletivo e transversal que toca individualidades, mercado e Estado. Em tempos de desinformação e transformações globais, promover cultura informacional, educação e mecanismos de verificação é prioridade para manter a saúde das democracias e a segurança das sociedades.






























